Flávio Bolsonaro foi a Washington para tentar virar a página da crise desencadeada em sua pré-campanha pela descoberta das relações de “irmão” com Daniel Vorcaro. Volta com uma foto protocolar ao lado de Donald Trump, mas longe de conseguir virar a página de um roteiro bem mais intrincado que o de “Dark Horse”, a produção alegadamente milionária sobre a vida de seu pai.
Para conseguir o encontro na Casa Branca, Flávio contou com a ajuda do time avançado do bolsonarismo nos Estados Unidos, integrado por seu irmão Eduardo e pelo fiel escudeiro Paulo Figueiredo. A viagem também parece ter sido providencial para a turma alinhar as versões até aqui completamente desencontradas para o repasse de pelo menos R$ 61 milhões (ou US$ 10 milhões) de Vorcaro ao pré-candidato do PL.
Mas, como nem tudo na política se resume a uma operação para foto, como parece acreditar o comitê de gestão de crise bolsonarista, a realidade teima em impedir que a família mude de assunto na marra. A fotografia com Trump acabou chegando no dia em que a Polícia Federal voltou a bater à porta do ex-governador do Rio Cláudio Castro, aliado do clã e responsável, segundo as investigações, por viabilizar politicamente uma operação que destinou pelo menos R$ 2 bilhões da Rioprevidência a papéis e fundos do Master.
— Tudo em contexto de crescente dificuldade do banco, diante de aparente crise de liquidez, tornando essencial a captação de aplicações junto a RPPSs e de substituição de instrumentos por novos produtos financeiros — conforme sustentou a PF.
O clique com Trump fora da agenda oficial também ocorreu um dia depois de o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, dizer com a maior tranquilidade na GloboNews que Flávio visitou Vorcaro em São Paulo em 2025 “para ver se conseguia o restante do dinheiro” prometido pelo banqueiro para o filme, nada menos que outros R$ 73 milhões.
A operação Casa Branca não resolve o problema central: a quantidade de perguntas sem resposta aumenta a cada dia. E a lista agora ganha um apêndice nada trivial com os detalhes do capítulo Rioprevidência, cujos ingredientes Flávio tentou afastar numa de suas primeiras versões: o aporte de fartas quantias de dinheiro público — no caso dos beneficiários da instituição, no esquema de Vorcaro.
A conclusão de que o Q.G. bolsonarista se enrola em versões desencontradas está consolidada mesmo entre eleitores que ainda buscam alternativa a Lula. Tanto é que os demais pré-candidatos que tentam pescar no aquário da direita têm tentado, de forma bem desajeitada, se beneficiar dessa sensação disseminada.
Além disso, por mais que se tente espremer o limão seco do encontro-relâmpago com Trump, ainda existe uma realidade incômoda para a intrépida trupe: os recentes encontros do republicano com Lula foram oficiais, mais produtivos e mostraram um recuo estratégico do governo dos Estados Unidos da defesa ideológica mais aguerrida do bolsonarismo.
Para um movimento político que se alimenta antes de tudo de comunicação direta e de alto impacto imagético, a montanha pode ter parido um rato. Mesmo porque a foto rendeu memes nada edificantes para Flávio.
Assim como é ilusório imaginar que o caso está encerrado, continua prematuro decretar um dano irreversível para sua pré-candidatura. A troca no comando de comunicação da campanha trouxe profissionais mais gabaritados para cuidar do marketing do pré-candidato do PL, que também manteve sólida posição nas pesquisas, mesmo com abalos imediatos em sua disputa no mano a mano contra Lula.
Mas fica evidente que não bastará inventar um factoide, mesmo internacional, nem vetar perguntas sobre o assunto Vorcaro, como fizeram questão de impor na breve coletiva em Washington, para que o tema suma por mágica. Ele está mais latente e com maior capilaridade do que nunca.
Vera Magalhães, jornalista
Fonte: https://oglobo.globo.com/


