Durante o júri popular de Jairton Silveira Bezerra, ex-mulher relatou histórico de agressões e perseguições. Ele foi condenado a 54 anos de prisão pelo assassinato de Paula Gomes
Uma ex-mulher de Jairton Silveira Bezerra, condenado a 54 anos de prisão por assassinar Paula Gomes da Costa, contou que deixou o Acre para escapar das ameaças do acusado. Em relato durante o júri do acusado, nessa terça-feira (28), ela disse que viveu sob violência constante e que temia ser morta por ele. A vítima terá a identidade preservada.
Ao g1, a defesa de Jairton informou que não irá se manifestar sobre os relatos.
Jairton foi condenado a 54 anos de prisão, em regime inicial fechado, por assassinar Paula a facadas, na frente da filha de 6 anos, em outubro de 2024, no bairro Alto Alegre, em Rio Branco. O crime ocorreu após ele não aceitar o fim do relacionamento e mesmo com medida protetiva em vigor.
Segundo a ex-mulher, o relacionamento com Jairton terminou cerca de dois anos antes de ela deixar o estado, mas as ameaças continuaram mesmo após a separação deles. Ela contou que, mesmo à distância, era perseguida e intimidada por ele.
“Ele falava que, na hora que chegasse o pedido de divórcio na empresa que trabalhava, ele ia me matar. Se eu não voltasse pra ele, me mataria. Se eu fizesse um boletim de ocorrência, também me mataria. Eu sempre tive muito medo dele”, disse.
A mulher afirmou que conseguiu formalizar o divórcio já morando fora do Acre, após sucessivas ameaças. “Ele já tinha outros relacionamentos, mas nunca me deixou em paz. Era um inferno”, resumiu.
Ainda conforme o relato, o comportamento agressivo começou cerca de dois meses após o início da convivência. Ela descreve episódios de violência física e diz que foi agredida diversas vezes.
“Nos primeiros meses ele era bom, mas depois começou a mudar. Ele sempre me bateu, sempre me ameaçou. Eu não tinha paz”, contou.
Em um dos episódios narrados, a mulher disse ter sido agredida com socos e atacada com um cortador de unha.
“Teve uma vez que ele me deu um soco no nariz, me puxou pelo cabelo pra dentro de casa e tentou cortar meu rosto. Eu fiquei com a mão toda furada tentando me defender e cada vez mais ele me furava. Quando comecei a gritar por socorro bem alto, ele foi embora correndo. Esse dia eu não consegui nem fechar a minha mão”, afirmou.
‘Manipulador’
A ex-mulher também disse que chegou a alertar Paula sobre o comportamento de Jairton quando soube do relacionamento entre eles.
“Quando a gente conhece o Jairton, ele parece um anjo. Ele engana qualquer pessoa. É manipulador, dissimulado e consegue o que quer. Então, quando contamos para as pessoas, elas não acreditam”, disse.
A mulher relatou ainda que o histórico de violência indica que o desfecho poderia ter sido o mesmo com ela.
“Falar do Jairton é falar de uma pessoa fria e calculista. Graças a Deus tive coragem de me livrar do relacionamento com ele. Se eu tivesse permanecido, infelizmente, ele teria feito a mesma coisa comigo”, completou.
Condenação
Jairton foi condenado em regime inicial fechado por feminicídio, qualificado por motivo torpe, com recurso que dificultou a defesa da vítima na presença de descendente com intenção de matar em contexto de violência doméstica. Ele não pode recorrer da sentença em liberdade.
Contudo, a defesa do acusado confirmou que vai recorrer da sentença porque a pena foi acima do esperado.
Ao g1 pela manhã na Cidade da Justiça, a família de Paula cobrou justiça com cartazes e blusas com a foto dela e relembrou a violência do crime.
“Minha irmã era uma pessoa muito querida na família, era de casa para o trabalho, do trabalho para casa. A saudade vem e fica um buraco, ainda mais quando olho para a filha dela que escreve o nome da mãe por todo o quarto da minha mãe. Está sendo um pesadelo muito grande”, disse Cristina Silva, irmã de Paula.
Patrícia Silva, também irmã de Paula, disse que a condenação traz um sentimento de justiça à família. Contudo, ela queria uma pena maior. “Vai pagar pelo crime que cometeu, justiça foi feita de alguma forma”, resumiu.

Processo
Em janeiro de 2025, a Justiça aceitou a denúncia do MP e tornou Jairton réu no processo. Em junho do mesmo ano, o juiz Alesson Braz decidiu que ele fosse a júri popular, por entender que haver indícios suficientes para que o caso seja julgado pelo Conselho de Sentença.
À época, a defesa tentou mudar a acusação para homicídio qualificado, mas o pedido foi negado. Também foram rejeitados os pedidos para que o acusado respondesse ao processo em liberdade ou tivesse a prisão substituída por outras medidas.
Já em novembro, a defesa de Jairton teve negado o recurso que pedia a retirada da qualificadora de feminicídio, para que ele fosse julgado apenas por homicídio qualificado. A primeira audiência chegou a ser adiada em maio do ano passado.
Feminicídio
Jairton, que era gerente em uma loja de tintas da capital acreana, fugiu após o crime. Ele foi casado com Paula por 13 anos e já tinha agredido a vítima em outras ocasiões, o que fez com ela tivesse conseguido uma medida protetiva contra ele.
O acusado se entregou à polícia no dia 6 de novembro de 2024 na Delegacia de Flagrantes (Defla), em Rio Branco, 10 dias após o crime. Logo em seguida, foi encaminhado à Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) para prestar depoimento.
Ele teve um pedido de liberdade ou substituição de prisão por medidas cautelares negado em dezembro de 2024. No início de abril de 2025, teve negado outro pedido de benefício da Justiça gratuita e exclusão no processo da agravante de que o crime foi cometido na frente da filha do casal.
No pedido, a defesa alegou à época, a ausência dos requisitos legais para manutenção da prisão. O suspeito também utilizou a filha como argumento, mesmo sendo apontado como o culpado por tirar a vida da mãe dela e fazer com que testemunhasse o crime.

