Entrevista Brasil 247 – O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, cobrou que o governo de Javier Milei interrompa imediatamente as agressões contra autoridades e instituições brasileiras como condição para que Brasil e Argentina retomem a normalidade nas relações diplomáticas. Segundo o chanceler, a parceria entre os dois países é maior do que as divergências entre os governos de turno e exige de Buenos Aires um gesto para superar a crise.
Em entrevista ao jornal argentino Clarín, Vieira afirmou que as sucessivas manifestações de Milei provocaram um desgaste que levou a relação bilateral a ser administrada por encarregados de negócios. Ex-embaixador do Brasil em Buenos Aires, o chanceler enfatizou que a interrupção das agressões seria suficiente para iniciar a recomposição do diálogo.
“A Argentina tem que valorizar a relação com o Brasil da maneira como o Brasil valoriza a relação com a Argentina. É preciso ser muito claro em nome dessa relação: deve-se parar imediatamente com esse tipo de agressão, para trabalhar no vínculo bilateral, que é tão importante. Para o governo brasileiro, a relação entre os dois países é primordial, importantíssima, e devemos saber se o atual governo argentino pensa da mesma maneira em relação ao Brasil. Essas ofensas foram muito graves. Portanto, deve-se preservar essa relação, suspender as agressões e retomar o caminho da normalidade no vínculo bilateral”, disse.
Vieira sustenta que as declarações do presidente argentino ultrapassaram as divergências políticas com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e atingiram instituições brasileiras e integrantes dos Poderes.
“Não sei como são os contatos do presidente Milei com o governo dos Estados Unidos. O que posso dizer é que nossa situação bilateral entre Brasil e Argentina chegou ao ponto de ser administrada por encarregados de negócios, devido às agressões não apenas a pessoas por parte do presidente argentino, mas ao Brasil, às instituições brasileiras, aos Poderes e ao responsável pela Corte que teve um papel fundamental para deter um golpe militar e punir os culpados”, afirmou.
Segundo o chanceler, as declarações de Milei não constituíram um episódio isolado.
“E o presidente Milei não fez isso uma vez, mas em várias ocasiões em menos de uma semana, a primeira delas na convenção do Partido Liberal. Foi surpreendente para brasileiros e argentinos ver as imagens daquele ato, aquela atitude do presidente argentino, com palavras graves… algo assombroso, que depois repetiu outras vezes”, disse.
Relação entre Brasil e Argentina está acima dos governos
Apesar da deterioração do diálogo político entre Lula e Milei, Vieira ressaltou que a integração construída ao longo de décadas deve prevalecer sobre as diferenças entre os atuais governos.
“O mais importante é destacar que a relação entre Argentina e Brasil é muito importante e superior a quem esteja no poder em determinado momento. O Brasil é o primeiro parceiro comercial da Argentina, temos programas de anos no vínculo bilateral e mecanismos importantíssimos”, afirmou.
O chanceler lembrou a aproximação promovida pelos ex-presidentes José Sarney e Raúl Alfonsín, que marcou uma nova etapa nas relações entre os dois países e permitiu a criação de mecanismos de confiança e transparência, inclusive na área nuclear.
Vieira voltou a insistir que Buenos Aires precisa interromper as agressões para que o relacionamento seja reconstruído. “A Argentina tem que valorizar a relação com o Brasil da maneira como o Brasil valoriza a relação com a Argentina”, declarou.
Retorno de embaixador depende do fim das tensões
Questionado sobre o retorno do embaixador brasileiro Julio Bitelli a Buenos Aires, Vieira condicionou a medida ao desaparecimento das circunstâncias que provocaram seu afastamento.
“Quando cessarem as condições que levaram à sua saída, da mesma forma que a do embaixador [argentino em Brasília, Guillermo Daniel] Raimondi, a quem conheço há 30 anos, um diplomata distinto. É necessário um gesto: parar as agressões. É um gesto simples diante da importância das relações bilaterais”, afirmou.
O ministro também manifestou disposição para visitar novamente a Argentina caso o ambiente diplomático permita. “Ter a oportunidade de fazê-lo, tomara que em breve. Seria com muito prazer”, disse.
Vieira rebate acusações de Milei
Outro ponto de confronto abordado na entrevista foi a acusação de Milei de que o governo brasileiro teria financiado uma campanha internacional contra a Argentina. Vieira classificou a alegação como falsa.
“Isso é totalmente falso. Não é preciso ser economista para perceber esse disparate de pagamentos de bilhões… ou também as referências que ele fez sobre o ex-ministro das Finanças da Argentina, que era candidato a presidente. Ele veio ao Brasil, mas veio para visitar o ministro da Fazenda brasileiro, fez isso quando estava no exercício do cargo à frente da pasta da Economia. Não é possível dizer que, por isso, estávamos a favor de um candidato. Totalmente mentira”, declarou.
O chanceler se referia a Sergio Massa, então ministro da Economia da Argentina e adversário de Milei na eleição presidencial de 2023.
“Sergio Massa veio por interesses comuns de seu ministério e visitou o ministro da Fazenda. Não são coisas iguais. Não há equivalência entre isso e o que acaba de acontecer. São invenções, não são coisas verdadeiras”, acrescentou.
Chanceler rebate classificação de Lula como comunista
Vieira também respondeu às declarações que classificam Lula como comunista. Para o chefe do Itamaraty, esse discurso faz parte das agressões dirigidas ao governo brasileiro e não corresponde ao funcionamento da economia do país.
“Isso faz parte de todas as agressões. Surpreende porque o Brasil tem uma economia aberta, hoje com a menor taxa de inflação de toda a sua história, desemprego mínimo e um enorme comércio exterior, com enormes reservas externas. Um país que atua com um modelo capitalista. O presidente Lula jamais negou nada nem quis mudar esse padrão da economia. Não sei, talvez seja a visão do presidente argentino”, afirmou.
O chanceler rejeitou ainda a interpretação de que mudanças eleitorais na América Latina, com vitórias de forças de direita, teriam provocado o isolamento regional do Brasil.
“Essas mudanças são resultado das eleições em toda a região, são decisão dos eleitores. Então não nos preocupam, são decisões dos votantes”, declarou.
Segundo Vieira, Brasília mantém relações com governos latino-americanos independentemente de suas orientações políticas.
“Não há isolamento, temos boa relação com todos”, afirmou.
Vieira acusa Estados Unidos de interferência
Além da crise com a Argentina, Vieira fez críticas contundentes à atuação dos Estados Unidos em assuntos internos brasileiros. Ao comentar o desgaste recente entre Brasília e Washington, classificou as iniciativas estadunidenses como interferência no processo político do Brasil. “É, sem dúvida, parte da ofensiva de intervenção nas eleições”, afirmou.
Vieira citou, como um dos focos de tensão, o processo envolvendo a indicação de um candidato dos Estados Unidos para assumir a embaixada norte-americana em Brasília. O chanceler criticou a maneira como a consulta ao governo brasileiro teria sido conduzida e afirmou que sua exposição pública contrariou os procedimentos diplomáticos.
“A consulta tem que ser feita de forma sigilosa e não pública”, disse.
De acordo com o ministro, a questão ocorreu em um contexto de manifestações de autoridades norte-americanas sobre o sistema eleitoral brasileiro e sobre Jair Bolsonaro.
Vieira afirmou ter discutido diretamente essas questões com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio.
“Eu falei com ele várias vezes, duas vezes em Washington. Tratei desses temas que começaram, recordemos, com a tentativa de obstruir o julgamento contra o ex-presidente Jair Bolsonaro”, declarou.
O chanceler argumentou que pressões dirigidas ao Executivo brasileiro não poderiam interferir em processos conduzidos por outros Poderes.
“Começou aí a ingerência, com sanções e demandas ao governo exigindo o fim do processo contra o ex-presidente, coisa que, além disso, no Brasil não pode ser feita porque os Poderes são independentes”, afirmou.
Brasil rejeita pressão para se afastar da China
Vieira também defendeu a estratégia do governo Lula de manter relações econômicas e diplomáticas simultaneamente com Estados Unidos, China, Europa e outras regiões, em vez de alinhar o Brasil exclusivamente a um dos polos da disputa internacional.
“O Brasil tem relações muito importantes com os Estados Unidos, que são nosso segundo parceiro comercial, e tem importantes relações com a China. A China não está presente apenas no Brasil, mas em toda a América”, disse.
Segundo o ministro, o governo brasileiro procura diversificar parceiros e ampliar a presença comercial do país.
“O presidente Lula está implementando uma política de presença em todos os continentes, com um comércio equilibrado. Cresce enormemente o comércio com o Sudeste Asiático, por exemplo. E com a Europa. Não temos dúvidas da importância de uma relação com todos os países”, afirmou.
O chanceler criticou ainda o emprego de sanções e barreiras comerciais como instrumento de pressão política.
“Entendo que a política de pressões e sanções não é útil, o que serve é a negociação. O Brasil sempre foi favorável às negociações e aos entendimentos, tanto com aqueles com quem compartilhamos posições como com aqueles com quem temos divergências”, declarou.
Para Vieira, medidas punitivas não constituem um caminho eficiente para obter melhores condições em uma negociação internacional. “Não é crível que uma ação punitiva vá melhorar a posição em uma negociação”, disse.
Ao abordar a política tarifária estadunidense, o ministro avaliou que mudanças no cenário político dos Estados Unidos poderiam produzir reflexos sobre as medidas comerciais.
“Se perder as eleições legislativas, talvez isso tenha um reflexo sobre essa política tarifária e ela seja aliviada. Todos os países da região têm dificuldades com isso, inclusive a Argentina, e o Brasil também. Todos estamos sofrendo o impacto das tarifas norte-americanas”, afirmou.


