Rio Branco, AC 24 de agosto de 2026 14:02
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Vergonha de ser do Acre

Faz 30 anos que eu saí do Acre.

Trinta anos. Tempo suficiente para um seringueiro virar avô, para o Rio Acre secar 30 vezes e para eu aprender a dizer que sou de Brasília sem sotaque.

Mas tem música que me desmonta. É o Da Costa. Jofre Barbosa da Costa, o pedreiro-sambista do Igarapé Fundo. Ele resumiu tudo num verso que não tem erro:

“Meu Acre querido, não posso te esquecer.”

Eu não posso, Da Costa. Mas, de 20 anos para cá, lembrar dói diferente. Virou vergonha.

Rui Barbosa já tinha escrito o roteiro disso em 1914, no Senado:

“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.”

Rui falava do Brasil de Hermes da Fonseca. Eu leio e vejo o Acre de 2026. Ano eleitoral.

Porque o acreano é um povo que não nasceu acreano por acidente. O acreano pegou em armas. Em 1902, ao lado de José Plácido de Castro, que liderou a terceira Revolução Acreana e governou a República do Acre até o Tratado de Petrópolis, esse povo expulsou os bolivianos e escolheu ser brasileiro. O Acre é o único estado que lutou para pertencer ao Brasil. Virou brasileiro por opção.

Hoje, o filho desse povo que lutou para entrar no Brasil luta para sair do Acre.

E sai por falta do básico. Do dado oficial, não da minha opinião:

Sai porque 71% da nossa receita vem do FPE e 64% de Transferências Correntes. Não produzimos o que gastamos. Dependemos de Brasília como quem depende de soro.

Sai porque 46,2% ainda são pobres, a maior taxa do Brasil. E 133,9 mil famílias precisaram do Bolsa Família em 2024 para comer.

Sai porque só 57,8% têm água de rede, só 19,91% de Rio Branco tem coleta de esgoto, 62,25% da água se perde no caminho, faltam 28.717 casas e o IDEB do ensino médio é 4,0.

Sai porque a taxa de homicídios é de 20,3 por 100 mil e a de feminicídio é de 2,4 por 100 mil mulheres, a terceira maior do país. Sai por medo.

E sai, sobretudo, por vergonha. Vergonha de ser honesto num lugar onde, pela primeira vez na história, o ocupante do Palácio Rio Branco foi condenado pela Corte Especial do STJ a 25 anos e 9 meses de reclusão em regime fechado, a maior pena já aplicada pelo STJ, por organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações, apontado como chefe de organização que desviou mais de R$ 11 milhões.

É por isso que estamos em ano eleitoral, meu Acre querido.

E tem gente que sobe no palanque e diz, com a cara mais lavada que a nossa rede de esgoto, que vai dar “continuidade”.

Continuidade a quê, meu Acre?

Continuidade aos 71% de dependência?

Continuidade aos 46,2% de pobreza?

Continuidade aos 19,91% de esgoto?

Continuidade ao IDEB 4,0?

Continuidade aos R$ 119 milhões bloqueados da Ptolomeu, aos R$ 3,38 milhões da Dilapsio, aos R$ 6,6 milhões da Demérito?

Se continuidade é isso, continuidade é corrupção com outro nome. É o ramal que nunca seca.

Por isso esta crônica não é sobre saudade. É sobre responsabilidade.

A responsabilidade do próximo governador não é fazer mais um ramal. É fazer o Acre voltar a ser o Acre que escolheu ser brasileiro.

É fazer o acreano que está fora — como eu, há 30 anos — ter vontade de voltar. Voltar para produzir. Voltar porque tem água na torneira, esgoto na rua, escola com nota maior que 4,0 e segurança para a filha andar na rua sem virar estatística de feminicídio.

É fazer o acreano parar de ter vergonha de ser honesto.

Rui Barbosa dizia que o homem chega a ter vergonha de ser honesto de tanto ver triunfar as nulidades.

O próximo governo precisa fazer o inverso: fazer o desonesto ter vergonha de ser desonesto no Acre.

Plácido de Castro pegou em armas para incorporar o Acre ao Brasil.

Agora precisamos de um governante que pegue vergonha na cara para incorporar o Acre ao século XXI.

Meu Acre querido, não posso te esquecer.

Mas, em outubro de 2026, meu Acre querido, você precisa decidir se quer continuar sendo inesquecível pela saudade ou inesquecível pela vergonha.

A escolha é sua. O voto é seu. A responsabilidade é de quem vai sentar na cadeira que, pela primeira vez na história, ficou vazia por condenação de 25 anos e 9 meses.

Que o próximo que sentar lá sente para o acreano que está fora ter vontade de voltar.

E não para o acreano que está dentro ter que ir embora.

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