Rio Branco, AC 20 de agosto de 2026 16:10
HOME / ARTIGOS / O fator redutor

O fator redutor

Um ser humano pode ser tudo nesta vida. Alguém sozinho, quieto, pacato, um desses tipos que a gente mal nota, pode ter virtudes imensas e defeitos medonhos, num arranjo singular e inconfundível. Para começar a conversa, é bom lembrar que ninguém é puramente virtuoso, ninguém é puro vício. “Não és bom, nem és mau: és triste e humano”, escreveu Olavo Bilac, que, embora tristemente parnasiano, acertou. Qualquer pessoa, mesmo sem ser parnasiana, é um oxímoro ambulante, ainda que não saiba que o mundo lhe “foi contraditório”, na expressão de Carlos Pena Filho. Pode-se ser “ou isto ou aquilo”, à la Cecília Meireles, pode-se ir para lá ou vir para cá, pode-se perguntar sobre “ser ou não ser”, como Hamlet, pode-se até ser e não ser de uma vez só, sem que ninguém perceba.

E que diferença isso faz? Nenhuma. Rigorosamente, nenhuma.

Em função desse fato inconteste, que está aí há um tempão, mas todo mundo teima em ignorar, hoje eu não tratarei de nenhuma notícia atordoante e nenhum descalabro momentoso da agenda nacional; vou falar apenas dessa condição estranha de se poder ser tudo nesta vida sem que isso faça a menor diferença. Um homem ou uma mulher podem ser tudo, e a chance de encontrarem alguma gratificação, digamos, reputacional ou econômica, é próxima de zero. Há uma exceção, aviso desde já, mas só vou revelá-la no final. Atenção, improvável leitor: não vale pular parágrafos para ir direto à conclusão. Se assim proceder, você perderá o fio.

Sigamos com o fio. Sugiro que você passe em revista as pessoas que conhece, próximas ou distantes. Você verá que existem aquelas que têm mais sabedoria, mesmo sem ter erudição. Também verá que existem as eruditas em cinco idiomas, copiosamente opacas. Verá figuras corajosas, que não se jactam, e outras exibicionistas de sua valentia postiça que não sabem enfrentar nem a própria vaidade. Encontrará quem prime pelo equilíbrio, pela mansidão de que falou Norberto Bobbio, aquela serenidade ativa, feita de temperança, e encontrará também as que são dadas a arroubos tonitruantes e ocos. Há de tudo nesta vida.

Há os avaros e há os pródigos, ambos tóxicos. Em número reduzido, há os que sabem ser generosos sem esbanjar autoelogios – cultivam a liberalidade sem chamar a atenção. Um ser humano pode ser magnânimo sem botar banca, pode não abaixar a cabeça a ninguém e não querer fazer curvar a coluna vertebral os outros. É raro, mas acontece de aparecer alguém assim de vez em quando.

Existem pessoas engraçadas e espirituosas, que nos despertam alegria. Existem aquelas que, inspiradas, tornam mais leves os dias pesados e mais curtas as noites longas. Há quem seja amável com naturalidade, quase com displicência, sem resvalar na falsidade. Há quem se porte com uma nota de cortesia sem parecer artificial. Há quem diga a verdade sem ser rude, há quem se paute pela justiça, sem nenhum moralismo. Há gente boa por aí, e suas qualidades nos são dadas de presente, como o ar da atmosfera, que ainda não virou mercadoria premium.

Há crianças miúdas que cantam com uma afinação comovente, sem esforço nenhum. Outras sabem desenhar, e riscam a folha de papel com espontânea precisão, sem precisar de ensaios. Existem as que fazem peraltices com maestria, tornando a travessura uma forma de arte. Delas dizemos que são arteiras. Também sei que existem os articulistas que anotam coisas belas sem descambar na cafonice – o que não há de ser o meu caso (ponto pra você). Há amores sublimes, Benjamin Péret mandou avisar. Há seres humanos sublimes. E tudo isso para quê? À toa. Há escritores inteligentes, de prosa cristalina. Há místicos que têm fé e permanecem em silêncio. Há artistas revolucionários que são bons. Há os reacionários que são bons igualmente, ou até melhores. Há artistas panfletários, e os homens do poder confraternizam com eles – ou mandam prendêlos, o que é “triste e humano”, além de feio.

á seres humanos bonitos, tanto mais que Apolo, muito mais do que Dafne. Há beatas em êxtase gozoso, como Santa Teresa de Ávila segundo o cinzel de Bernini. Há damas pedestres que, quando passam, desincentivam os suicidas. Há os moços que não são de frete e que olham adiante com uma quentura dos diabos e dos deuses. Essas personas sensuais também são boas, com desprendimento e gratuidade. Evoé.

Um ser humano pode ser tudo nesta vida. Às vezes, pode também ser ambicioso e esperto. Aí, e apenas aí, ganhará dinheiro e regalias. Essa é a exceção que anunciei logo no início.

As conjunções históricas da nossa era, com suas telas de luz pálida, fizeram decantar essa fórmula social indescritível em que a ambição e a esperteza, acumpliciadas, sujeitam todas as outras aptidões, faculdades, habilidades, vocações, afecções e virtudes, todos os outros vícios, defeitos e talentos da humanidade. Uns olham para isso e balbuciam a palavra meritocracia. Não importa. A ambição e a esperteza, associadas uma à outra, subordinam e exploram as demais potencialidades que carregamos. As duas são os únicos traços humanos remunerados pelo capital.