Os EUA podem até ameaçar duplamente com mais tarifas, pela Seção 301 e por alegação de “trabalho forçado”, mas não se atrevam a mexer com uma coisa: o Pix, que mais de 170 milhões de brasileiros (93% dos adultos do País) usam e não aceitariam voltar para as velhas notas amassadas, desagradáveis, que exigem troco, algo cada vez menos disponível.
Gente que faz negócio sujo é que gosta de dinheiro vivo, gente trabalhadora ou empreendedora não abre mão do Pix. Donald Trump tende a dividir o Brasil, na mesma proporção da polarização política, ao declarar PCC e CV como “terroristas” e se autoconceder o direito de pintar e bordar por aqui, como fez na Venezuela. Mas ameaçar o Pix não divide, e sim une de lulistas a bolsonaristas.
Tanto é assim que Flávio Bolsonaro classificou como “grande dia” o da classificação do PCC e CV como “terroristas”, mas tratou, rapidinho, de desmentir, ou tentar desmentir, a sensação generalizada de que estava por trás da ameaça de Trump ao Pix e até postou foto com um cartaz dizendo que “O Pix é do Brasil e do Bolsonaro”.
Versão de Flávio não se leva a sério, já foi pego na mentira, por exemplo, negando com uma gargalhada que Daniel Vorcaro tivesse financiado o filme Dark Horse, horas antes da divulgação do áudio em que pedia a bagatela de R$ 134 milhões a Vorcaro, para o filme sobre o pai. Mentira tem perna curta.
Logo, o que transparece na pressa em negar que tenha incentivado Trump a meter a mão no nosso Pix e dizer que até tentou dissuadi-lo da ideia é a certeza do quanto isso afetaria sua candidatura à Presidência. Afinal, foi logo depois do encontro e da foto com Flávio na Casa Branca que Trump voltou sua metralhadora giratória contra o Brasil.
Primeiro, o PCC e o CV como pretexto para intervir no Brasil; depois, o anúncio, sem comunicação ao governo, de tarifas de 25% como sanção por “concorrência desleal”, dentro da Seção 301; agora, mais 12,5% por “trabalho forçado”. Coincidência? E Flávio defenderia a ingerência externa, mas não o bocão sobre o Pix? E o tal “trabalho forçado”?
Trump chamou Flávio de “jovem inteligente que ama muito o seu país” e pode até querer intervir no Brasil, mas ele não vota aqui. Os 160 milhões de brasileiros que votam não devem gostar de mexerem no nosso Pix de cada dia e de Flávio no meio disso. Segundo a Genial/Quaest, no Estadão, a mentira e o áudio com Vorcaro já abalam a credibilidade do candidato entre os eleitores “independentes” (nem Lula nem Bolsonaro) e são eles, justamente, os que devem decidir as eleições. Imaginem a pimenta do Pix nesse angu…
Eliane Cantanhêde, jornalista
Fonte: https://www.estadao.com.br/


