Argentina, Chile, Peru e outros países mantêm aproximação com Washington; candidato brasileiro intensificou contatos com o governo americano em 2026
A influência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre governos da América do Sul ganhou força nos últimos anos e reúne atualmente diferentes níveis de aproximação política, diplomática e econômica. Se Flávio Bolsonaro (PL) vencer a eleição presidencial brasileira no segundo turno, o Brasil poderá se somar ao grupo de países que mantêm relações mais próximas com Washington.
Flávio terminou o primeiro turno na frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 47,03% dos votos, contra 45,16% do petista. A disputa será decidida em 25 de outubro.
A relação entre o senador brasileiro e Trump também se estreitou ao longo de 2026. Em maio, Flávio esteve na Casa Branca e afirmou ter pedido ao presidente americano que o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho fossem classificados pelos Estados Unidos como organizações terroristas.
Em junho, Trump publicou uma fotografia do encontro com Flávio no Salão Oval e elogiou o brasileiro. Nos meses seguintes, o candidato também defendeu posições alinhadas a interesses do governo americano, como restrições à integração do Pix com sistemas de pagamento considerados “não ocidentais” e a entrada do Brasil no chamado Escudo das Américas, iniciativa de segurança promovida por Washington.
Quais países da América do Sul estão próximos de Trump?
O grupo não é homogêneo. Em alguns casos, a aproximação ocorre por afinidade ideológica; em outros, por interesses comerciais, cooperação na área de segurança ou acordos com os Estados Unidos.
Entre os países apontados no levantamento estão:
- Argentina — Javier Milei: é um dos principais parceiros políticos de Trump na região. O presidente argentino mantém contato frequente com o americano e já recebeu apoio econômico e político de Washington.
- Colômbia — Abelardo de la Espriella: eleito em 2026, recebeu apoio público de Trump durante a campanha. O presidente americano declarou que o resultado seria importante para a relação entre os dois países.
- Equador — Daniel Noboa: mantém uma relação mais pragmática com Washington, especialmente na área de segurança. Durante sua campanha pela reeleição, buscou apoio americano para o combate ao crime.
- Paraguai — Santiago Peña: é outro presidente sul-americano próximo do governo americano. Peña participou de uma iniciativa internacional promovida por Trump e demonstrou apoio à atuação do republicano.
- Bolívia — Rodrigo Paz: eleito em 2025, recebeu congratulações de Trump e defendeu uma relação de cooperação com os Estados Unidos. Washington também manifestou apoio ao governo boliviano diante de manifestações no país.
- Chile — José Antonio Kast: possui afinidade ideológica com Trump, principalmente em temas como segurança, imigração e crítica ao progressismo. O presidente americano declarou apoio ao chileno durante sua trajetória eleitoral.
- Peru — Keiko Fujimori: eleita em 2026, aproximou-se de Washington especialmente na área de segurança. O Peru aderiu ao Escudo das Américas durante seu governo.
- Venezuela — Delcy Rodríguez: o caso é diferente dos demais. A aproximação com Washington ocorreu após uma operação militar americana que retirou Nicolás Maduro do poder. O governo venezuelano passou a fazer acordos com os Estados Unidos, inclusive na área de petróleo.
Nesse último caso, não há a mesma relação ideológica observada entre Trump e nomes como Milei ou Kast.
Flávio Bolsonaro seria o nono?
Uma eventual vitória de Flávio colocaria o Brasil em uma posição diferente na política externa sul-americana.
O senador já indicou durante a campanha que pretende aprofundar a relação com os Estados Unidos. Em setembro, afirmou que, caso eleito, o Brasil faria parte do Escudo das Américas, coalizão de segurança criada pelo governo Trump.
A proximidade também ganhou força com os encontros entre Flávio e o presidente americano. Em maio, o brasileiro esteve na Casa Branca. No mês seguinte, Trump divulgou uma foto dos dois no Salão Oval e afirmou que Flávio era um jovem inteligente que amava o Brasil.
Entretanto, Trump não declarou apoio formal à candidatura de Flávio antes do primeiro turno. Questionado sobre a eleição brasileira nos dias que antecederam a votação, o presidente americano evitou dizer se apoiaria o senador.
Após o resultado, Trump classificou o desempenho de Flávio como uma “grande vitória” e disse que a disputa havia sido apertada.
O que é a Doutrina Monroe de Trump
A aproximação com governos sul-americanos faz parte de uma estratégia mais ampla do governo americano para aumentar sua influência no Hemisfério Ocidental.
Em sua nova estratégia de segurança nacional, o governo Trump afirmou que pretende retomar a chamada Doutrina Monroe, formulada em 1823 pelo então presidente americano James Monroe.
Originalmente, a política defendia que as potências europeias não deveriam ampliar sua influência sobre os países das Américas. A ideia ficou associada à frase de que a América deveria ser destinada aos americanos.
A estratégia anunciada por Trump busca aumentar a presença dos Estados Unidos na região em áreas como segurança, combate ao tráfico de drogas, controle de fronteiras e proteção de rotas marítimas.
A política chegou a ser apelidada pelo New York Times de “Doutrina Donroe”, em referência à junção dos nomes Donald Trump e James Monroe.
Por que a América do Sul é importante para Trump?
A região ganhou espaço na política externa americana principalmente por questões relacionadas a segurança, comércio, migração, drogas e disputa de influência com outras potências, especialmente a China.
A aproximação com governos que compartilham posições semelhantes às de Washington facilita negociações em diferentes áreas e amplia a presença diplomática e estratégica dos Estados Unidos no continente.
A eleição brasileira, nesse cenário, tem peso adicional por causa do tamanho do país e de sua influência política e econômica na América do Sul.
O Brasil também é um dos principais parceiros comerciais da China na região. Uma eventual mudança na política externa brasileira poderia alterar o equilíbrio das relações entre Washington, Pequim e os governos sul-americanos.
Além do tamanho da economia e da posição geográfica, o Brasil tem recursos naturais considerados estratégicos para os Estados Unidos. O país possui reservas de terras raras, conjunto de minerais usados em tecnologias como eletrônicos, baterias, equipamentos militares e sistemas de energia. A diversificação dessas fontes interessa a Washington diante da forte dependência mundial da produção chinesa.
O petróleo também aumenta a importância brasileira. O país está entre os grandes produtores mundiais e possui importantes reservas no pré-sal, principalmente no litoral. A produção brasileira ajuda a ampliar a oferta de energia e reduz a dependência de outras regiões produtoras.
O que pode acontecer se Flávio vencer?
Caso Flávio seja eleito, a política externa brasileira poderá passar por uma aproximação maior com o governo Trump.
O candidato já sinalizou interesse em participar de iniciativas americanas de segurança e defendeu uma relação mais estreita com Washington. Também estabeleceu uma relação pessoal com Trump durante a campanha.
Ainda assim, uma eventual mudança na política externa dependeria das decisões do futuro governo e das negociações diplomáticas com os demais países.
A eleição brasileira será acompanhada também fora do país. Uma vitória de Flávio poderá representar uma mudança na posição do Brasil dentro do cenário político sul-americano e ampliar a presença de governos próximos a Trump na região.


