Donald Trump ainda não havia completado dois meses de sua volta ao poder quando decidiu expulsar o embaixador da África do Sul nos EUA. Ao anunciar a medida, o secretário Marco Rubio citou o Breitbart, site de extrema direita conhecido por divulgar notícias falsas e teorias conspiratórias.
O caso de Ebrahim Rasool foi relembrado ontem por diplomatas brasileiros. Eles ainda tentavam digerir a informação de que o Departamento de Estado havia revogado o visto da embaixadora Maria Luiza Viotti.
O embaixador da África do Sul foi alvo de uma campanha de desinformação que acusava o país de ameaçar e perseguir a minoria branca. Influenciado pelo bilionário Elon Musk, Trump chegou a oferecer asilo aos chamados africâneres, sul-africanos de origem holandesa. Rasool criticou a ideia num debate virtual, o que serviu de justificativa para sua expulsão.
A embaixadora Viotti não deu pretexto para queixas pessoais. O Departamento de Estado escancarou que sua punição foi um ato de chantagem. Ela terá o visto devolvido se o Itamaraty der aval para o republicano Daniel Perez assumir a embaixada dos EUA em Brasília.
A indicação do deputado da Flórida desrespeitou uma regra básica da diplomacia. Segundo a Convenção de Viena, seu nome só poderia ter ser divulgado após consulta ao governo brasileiro. Mas a quebra de protocolo está longe de ser o maior motivo da crise.
Desde o ano passado, o governo Trump ataca o Brasil com tarifas abusivas, retirada de vistos e sanções individuais a ministros do Supremo. Em julho, a Casa Branca tentou enviar uma caravana a Brasília para desacreditar a urna eletrônica. As hostilidades fazem parte de uma ofensiva nada discreta para interferir na disputa presidencial.
Depois de um ano sob pressão, a África do Sul jogou a toalha. Indicou um político da era do apartheid para comandar sua embaixada em Washington. O Brasil evita agravar a crise, mas já deixou claro que não pretende se submeter aos métodos de Trump. Pelo menos até a eleição.
Bernardo Mello Franco, jornalista
Fonte: https://oglobo.globo.com/


