Sistema ficou fora do ar nos dias 1º e 2 de setembro e voltou nesta quarta-feira (3), mas dívida continua acumulada; empresa opera com seis meses de atraso para receber do governo; informações recebidas pela reportagem dão conta de que mulher foi assassinada por monitorado durante a suspensão
Comunicações internas do Instituto de Administração Penitenciária do Acre (Iapen), obtidas com exclusividade por esta reportagem, mostram que o serviço de monitoração eletrônica no Estado foi suspenso por falta de pagamento.

O sistema ficou completamente fora do ar a partir das 12h do dia 1º de setembro de 2026 e permaneceu desligado durante todo o dia 2 de setembro. O serviço foi restabelecido na manhã desta quarta-feira (3), mas a dívida permanece em aberto e continua acumulada.
A dívida que motivou a suspensão é de R$ 900.573,05, referente à competência de abril de 2026, Notas Fiscais nº 210 e 211, do Contrato nº 672/2023, firmado ainda na gestão Gladson Cameli com a empresa Spacecomm Monitoramento S/A.
A situação começou no governo Gladson Cameli e prosseguiu no governo Mailza Assis. A atual governadora, Mailza, é candidata à reeleição. Seu antecessor e principal aliado, Gladson, tenta viabilizar na Justiça Eleitoral sua candidatura ao Senado. Gladson foi condenado pela Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça, na Ação Penal nº 1.076/DF, a 25 anos e 9 meses de reclusão, em regime inicial fechado, pelos crimes de organização criminosa, corrupção ativa e passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraudes em licitações. Após a condenação, tornou-se inelegível com base na Lei da Ficha Limpa.

Em 25 de agosto de 2026, a empresa notificou o Iapen e informou que suspenderia os serviços a partir das 14h do dia 1º de setembro. Sugeriu acordo tripartite entre contratada, Iapen e Sefaz. O pagamento não foi realizado.
Segundo apuração da reportagem, a Spacecomm opera historicamente com um passivo de cerca de seis meses para receber do Governo do Estado, mantendo o serviço ativo mesmo com faturas vencidas, o que indica que a suspensão desta semana ocorreu após o esgotamento da tolerância contratual.
A suspensão foi confirmada por dois memorandos. O Memorando nº 232/2026/IAPEN-DME, da Divisão de Monitoramento Eletrônico, registra que, durante a suspensão, todos os monitorados ficaram sem cobertura e que a situação se estendeu às vítimas que usam Unidade Portátil de Rastreamento (UPR), de modo que, caso houvesse acionamento, a divisão não teria conhecimento imediato. O Memorando nº 447/2026/IAPEN-DIPLAG, da Diretoria de Planejamento, classifica a situação como de especial gravidade para vítimas com UPR.

Feminicídio durante a suspensão
Informações recebidas pela reportagem dão conta de que, justamente no período em que o sistema esteve suspenso, entre os dias 1º e 2 de setembro, uma mulher foi assassinada por uma das pessoas que estava sendo monitorada por tornozeleira eletrônica. Como o sistema estava desligado, não foi possível saber a movimentação do acusado nem gerar alerta à vítima.
O espaço segue aberto para explicações do Iapen e da Polícia Civil do Acre. No caso da Polícia Civil, especificamente com relação ao assassinato que teria ocorrido durante o período de suspensão do serviço de monitoração eletrônica.


