Rio Branco, AC 2 de junho de 2026 12:11
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O poder do dinheiro

Tudo indica que o caso Master provocará no terreno fértil da política brasileira o mesmo efeito que uma chuva persistente tem numa área íngreme: levará por água abaixo, com seu protagonista visível, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, boa parte de nossas estruturas institucionais, que apenas fingem funcionar, mas na verdade servem de fachada para que o compadrio continue prevalecendo na nossa sociedade. Escrevo “protagonista visível” porque cresce a desconfiança de que Vorcaro era apenas o lobista político do grupo criminoso que provocou o maior rombo da história financeira do país.

Seu entorno era formado apenas por integrantes dos Três Poderes, parlamentares, magistrados, autoridades econômicas, assessores, qualquer um que estivesse disposto a se vergar ao “poder corrosivo do dinheiro”. Mas, apesar de ter usado e abusado das artimanhas do mundo financeiro, ele não parece ter sido a cabeça pensante do mundo dos negócios, apenas um megalomaníaco que explorou o ponto fraco da anatomia de muitas das nossas autoridades, o bolso. Sendo ou não o chefão, Vorcaro terá de assumir esse papel, ou designar o chefão por trás dele, para que sua delação premiada seja homologada.

Até o momento, ele quer ser “compreendido” pelos policiais e promotores como vítima do sistema de poder que molda as ações em Brasília. Se não comprasse deputados, senadores, ministros — não somente os integrantes do governo, mas também dos tribunais superiores —, sugere nas entrelinhas de sua delação já recusada, não conseguiria fazer negócio em Brasília. Mesmo que muitos investigadores da Polícia Federal e integrantes do Ministério Público estejam convencidos, pelos fatos sucessivos já abordados, que é assim mesmo que a banda toca na capital, não estão dispostos a aceitar desculpas para atenuar a ação de Vorcaro.

Até mesmo a boataria de que ele é apenas um lobista de alto grau pode ter sido espalhada por ele próprio, para livrá-lo da culpa de chefiar o esquema criminoso que assusta o país. Com o cerco se fechando, Vorcaro daqui a pouco não terá mais condições de se beneficiar da delação premiada, pois as investigações estão muito adiantadas graças às provas e às indicações que os celulares dele e de sua turma deixaram pelo caminho. O pai do ex-banqueiro não foi preso para coagi-lo a delatar alguém, mas porque foram encontradas provas nos diálogos entre eles que mostram ser ele o comandante do grupo de capangas que Vorcaro usava para ameaçar ou se livrar de eventuais adversários.

Dos celulares de Vorcaro e sua turma, ou de alguma delação premiada, sairão as comprovações de culpa de vários já presos e mais alguns outros, ainda não surgidos. A ligação entre o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro e a ONG contratada pela Prefeitura de São Paulo para instalar Wi-Fi pela cidade, suscitada pelas investigações da Polícia Civil de São Paulo e chancelada por um juiz, pode retirar dos Bolsonaros a desculpa de que se tratava de dinheiro privado. Quando se sabe que o Banco Master está envolvido no desvio do dinheiro da Previdência dos servidores públicos de diversos estados e municípios, não é possível descartar a triangulação entre ONGs e fundações para alimentar o esquema criminoso coordenado pelo ex-banqueiro.

Assim como aconteceu com a Operação Lava-Jato, também o caso Master revela as entranhas do capitalismo selvagem brasileiro. Até agora, os acordos das elites, “com Supremo, com tudo”, têm conseguido anular todas as investigações que envolvam seus componentes e áulicos. Já há indícios de que movimento similar começa a ser urdido nos bastidores, retardando mesmo a decisão de Vorcaro de abrir a boca para a PF e a PGR, na esperança de que surja uma saída de última hora.

Merval Pereira, jornalista e escritor
Fonte: https://oglobo.globo.com/