Rio Branco, AC 30 de maio de 2026 12:26
HOME / ARTIGOS / Classificar PCC e CV como terroristas tem efeito incerto

Classificar PCC e CV como terroristas tem efeito incerto

O Departamento de Estado americano anunciou que, a partir de 5 de junho, as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) passarão a ser consideradas organizações terroristas, como os cartéis do narcotráfico e grupos como Al-Qaeda, Estado Islâmico, Hamas ou Hezbollah. Não foi exatamente uma surpresa, o movimento já vinha sendo gestado. No anúncio, porém, os Estados Unidos não apresentaram nenhuma evidência contundente de atuação terrorista dessas facções, cuja atividade criminosa e violenta tem motivação sobretudo financeira, não política, ideológica ou religiosa. Ao contrário dos cartéis mexicanos, os grupos brasileiros nem sequer têm o mercado americano como alvo principal. Apesar da arbitrariedade da medida, o Brasil será obrigado a lidar com as consequências.

Na esfera diplomática, ela expôs os limites da aproximação entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. Pelos relatos oficiais, o assunto nem foi tratado na recente visita de Lula a Washington. Na esfera política, o tema será na certa explorado na campanha eleitoral. O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL, esteve com Trump e com o secretário de Estado, Marco Rubio, às vésperas do anúncio e afirmou ter pedido a ambos a classificação de PCC e CV como terroristas. O Planalto reagiu em nota, rejeitando qualquer “interferência” externa e afirmando que “a soberania nacional é inegociável”. “A segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores”, diz o texto. “É deplorável que mais uma vez integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil, como já fizeram no tarifaço.”

Para além da exploração política de ambos os lados, a classificação terá consequências práticas. Especulações sobre intervenção militar americana, nos moldes da captura de Nicolás Maduro na Venezuela, não passam de alarmismo. Mais razoável é a preocupação com a cooperação entre autoridades brasileiras e americanas no combate ao crime organizado. Hoje a troca se dá com representantes do FBI, a polícia federal americana, e da DEA, a agência antidrogas. Com a entrada em cena das Forças Armadas e da CIA, existe o receio de que perca agilidade. “Precisamos entender qual será a extensão, na prática, da aplicação da classificação”, diz o promotor Lincoln Gakiya, do Ministério Público de São Paulo.

É pouco provável que os americanos engessem o fluxo de informações, pois passarão a prestar mais atenção ao Brasil. Empresas, em especial as financeiras, terão de aumentar o escrutínio de suas operações para evitar conexões, mesmo indiretas, com PCC e CV. “O custo do compliance aumenta, principalmente para bancos”, diz o cientista político Leandro Piquet Carneiro, da USP. “Isso pode ter um efeito sistêmico positivo.” O risco para quem for pego não se resumirá a sanções financeiras. Existe a possibilidade de condenação por crime federal nos Estados Unidos, e isso aumenta o poder de dissuasão. Mas os temores de abuso não são infundados. Basta lembrar que Trump tem sido pródigo no uso do Estado para perseguir adversários. Para o governo brasileiro, a melhor estratégia a adotar é aproveitar a medida para reforçar a cooperação com autoridades americanas no enfrentamento do crime organizado. A pior é brandir slogans num embate eleitoral estéril.

Editorial do jornal O Globo de 30.05.2026
Fonte: https://oglobo.globo.com/