Rio Branco, AC 15 de abril de 2026 14:58
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Julgamento de ex-governador Gladson Camelí tem horário adiado no STJ

Ex-governador do Acre que renunciou ao cargo para disputar o Senado é acusado de corrupção, lavagem de dinheiro e fraude em licitações. Relatora já votou pela condenação com pena de 25 anos

O Superior Tribunal de Justiça(STJ) retoma nesta quarta-feira (15), a partir das 14h (horário de Brasília), o julgamento do ex-governador do Acre, Gladson Camelí (PP), em uma ação penal que pode resultar em condenação criminal, perda de direitos políticos e inelegibilidade.

Previsto inicialmente para às 9h (horário de Brasília), o g1 apurou que o STJ decidiu alterar o horário do julgamento. O motivo não foi revelado.

Em jogo está o futuro político do ex-chefe do Executivo Estadual, que deixou o cargo no início de abril para disputar uma vaga no Senado nas eleições de 2026. A defesa do ex-governador informou que pediu o desentranhamento de todos os elementos de prova produzidos entre 25 de maio de 2020 e 12 de janeiro de 2021. (Leia a nota completa no final da reportagem)

Contexto: Camelí é acusado pelo Ministério Público Federal (MPF) de integrar organização criminosa envolvida em fraudes em licitações, desvio de recursos públicos, corrupção ativa e passiva, peculato e lavagem de dinheiro. A denúncia foi aceita pela Corte Especial do STJ em maio de 2024, dando início à fase de julgamento.

A análise do caso começou em dezembro do ano passado, quando a relatora, ministra Nancy Andrighi, votou pela condenação do então governador em todas as acusações. Ela fixou pena de 25 anos e nove meses de prisão em regime inicial fechado, além da perda do cargo. O julgamento foi suspenso após pedido de vista do revisor, ministro João Otávio Noronha, que agora deve apresentar seu voto.

O que está em jogo

Caso seja condenado por órgão colegiado, Camelí pode se tornar inelegível com base na Lei da Ficha Limpa. A regra prevê a suspensão dos direitos políticos por oito anos após a condenação, o que pode inviabilizar sua candidatura ao Senado em 2026, dependendo do desfecho e do trânsito em julgado do processo.

Além da inelegibilidade, uma eventual condenação também pode resultar no cumprimento de pena em regime fechado, bloqueio de bens, pagamento de R$ 11 milhões de indenização e manutenção das medidas cautelares já impostas.

Camelí formalizou a renúncia ao governo no dia 24 de março, com efeitos a partir de 2 de abril, em meio ao andamento do processo. Com a saída, quem assumiu o comando do estado foi a então vice-governadora Mailza Assis.

Paralelamente ao caso no STJ, o Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria, em dezembro de 2025, para anular provas obtidas na investigação. A decisão atende a um pedido da defesa, que alegou irregularidades na apuração conduzida por autoridades locais sem autorização do STJ, foro competente para julgar governadores.

Mesmo com esse entendimento, o processo segue em análise na Corte Especial do STJ, que deve decidir sobre a validade das acusações e a eventual condenação.

Camelí também permanece submetido a medidas cautelares, como a proibição de contato com testemunhas e outros investigados, entrega do passaporte, impedimento de deixar o país e bloqueio de bens.

Ptolomeu

A investigação da Operação Ptolomeu teve início em 2019 e foi conduzida pela Polícia Federal (PF) . As denúncias envolvem a contratação da empresa Murano, com sede em Brasília, para prestar serviços ao governo do estado. A empresa teria subcontratado outra, localizada no Acre, que tem como sócio o irmão do governador, Gledson Cameli.

Segundo a acusação, essa contratação resultou em um esquema de favorecimento financeiro ao governador e a outros envolvidos, causando prejuízos aos cofres públicos. Mesmo se tornando réu, ele foi mantido no cargo.

Em dezembro de 2024, ele prestou depoimento. Seus advogados de defesa disseram, à época, que iriam apontar falhas no processo. Eles pontuaram ainda sobre HDs apreendidos que, supostamente, não foram periciados, e um relatório de inteligência financeira com informações “inconsistentes”.

Entenda nesta reportagem as acusações contra Camelí e familiares.

Leia na íntegra a nota da defesa de Gladson Camelí

A defesa do ex-governador Gladson Cameli vem a público comunicar que, em 14 de abril de 2026, o Ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), nos autos da Reclamação Constitucional n.º 93.197 MC/DF, julgou procedente o pedido formulado pela defesa e determinou o desentranhamento de todos os elementos de prova produzidos contra o reclamante no período compreendido entre 25 de maio de 2020 e 12 de janeiro de 2021, bem como de todas as provas diretamente delas derivadas, dos autos da Ação Penal n.º 1.076/DF, em tramitação perante a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Na mesma decisão o ministro André Mendonça determinou, ainda, a expedição de comunicações com urgência ao Superior Tribunal de Justiça, para que o desentranhamento seja cumprido antes do prosseguimento do julgamento da Ação, cuja retomada estava prevista para esta quarta-feira 15 de abril de 2026.

A decisão representa a concretização do acórdão proferido pela Segunda Turma do STF, que, por 4 votos a 1, já havia reconhecido a nulidade absoluta das provas obtidas naquele período de forma ilegal.

A decisão do Ministro André Mendonça, reconhece que a decisão anterior da segunda turma do STF de usurpação de competência, com violação direta às garantias constitucionais do devido processo legal não foi efetivamente cumprida pela relatora.

A defesa ressalta que a presente decisão não é isolada: trata-se da consequência jurídica direta e necessária do reconhecimento, pela própria Corte Suprema, de que parte do material probatório foi obtido de forma ilícita. Provas nulas não podem fundamentar qualquer condenação em um Estado Democrático de Direito.

Reafirmamos a confiança nas instituições e aguardamos que o processo siga seu curso com estrita observância das garantias fundamentais asseguradas pela Constituição Federal a todo e qualquer cidadão.

Rio Branco /AC ou Brasília/DF, 14 de abril de 2026
Equipe de Defesa de Gladson Cameli.