Petista reverte desvantagem do primeiro turno, conquista quarto mandato presidencial e permanecerá no Palácio do Planalto até 2031, em uma eleição marcada pela polarização política
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente da República neste domingo (25), após derrotar o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições de 2026. O resultado representa uma virada histórica, já que o petista havia terminado a primeira etapa da disputa atrás do adversário. Com a vitória, Lula comandará o país por mais quatro anos e se tornará o primeiro presidente brasileiro a exercer quatro mandatos.
Desde a adoção do sistema de dois turnos, estabelecido pela Constituição de 1988, nenhum candidato à Presidência havia conseguido reverter, no segundo turno, uma desvantagem registrada na primeira votação. A vitória consolida mais um capítulo da trajetória política de Lula, que voltou ao poder em 2023, depois de derrotar Jair Bolsonaro (PL) nas eleições de 2022.
O novo mandato também manterá Geraldo Alckmin (PSB) na Vice-Presidência da República, repetindo a composição da chapa eleita quatro anos antes.
Disputa acirrada marcou a eleição
A eleição presidencial foi marcada pelo confronto entre dois projetos políticos e pela forte polarização entre os apoiadores de Lula e do grupo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
No primeiro turno, Flávio Bolsonaro terminou na liderança, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. A diferença de aproximadamente 2,2 milhões de votos colocou a campanha petista diante do desafio de ampliar sua base eleitoral e conquistar eleitores que ainda estavam indecisos ou haviam votado em outros candidatos.
Até a véspera da votação decisiva, pesquisas de intenção de voto apontavam empate técnico entre os dois concorrentes, indicando uma disputa sem favorito claramente definido.
Campanha petista mudou estratégia após o primeiro turno
A desvantagem inicial levou a campanha de Lula a reorganizar sua atuação política e digital. Logo após o resultado do primeiro turno, o presidente convocou reuniões com aliados para avaliar os números e definir estratégias capazes de ampliar o alcance de sua candidatura.
Uma das principais mudanças foi o investimento em conteúdos para as redes sociais. Integrantes mais jovens da base governista defenderam uma comunicação mais direta com o eleitor, incentivando Lula a gravar vídeos no formato selfie e a intensificar sua presença nas plataformas digitais.
A campanha também apostou na mobilização de apoiadores pela internet. O deputado federal André Janones (Rede-MG) criou o canal “Exército do Lula”, voltado à organização de simpatizantes e à disseminação de orientações para ações digitais. A iniciativa ganhou grande alcance, embora tenha enfrentado questionamentos e disputas envolvendo a campanha adversária e decisões relacionadas ao funcionamento do canal.
Outro movimento importante foi a participação de Lula em debates televisivos. Diferentemente da estratégia adotada na primeira etapa da eleição, o petista ampliou sua exposição frente a frente com Flávio Bolsonaro. Os encontros foram marcados por acusações, provocações e tentativas de ambos os candidatos de associar o adversário a problemas políticos e econômicos.
Programas sociais entraram no centro do confronto
Na comunicação eleitoral, Lula explorou as propostas de redução de despesas apresentadas por Flávio Bolsonaro, especialmente a promessa de promover um “tesouraço” nos gastos públicos.
A campanha petista argumentou que cortes poderiam atingir programas sociais, como Bolsa Família, Farmácia Popular e Pé-de-Meia. A estratégia buscou mobilizar eleitores preocupados com a manutenção de benefícios e políticas públicas.
A equipe também passou por mudanças na coordenação. O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), reforçou a área de comunicação, enquanto o senador Camilo Santana (PT-CE) participou da coordenação política. Rui Costa (PT-BA), ex-ministro e senador eleito pela Bahia, também assumiu papel importante na articulação da agenda eleitoral.
Além da reorganização interna, atos de campanha realizados em diferentes regiões do país contribuíram para manter a mobilização da base petista durante o segundo turno.
Lula assumirá novo mandato aos 81 anos
Aos 80 anos, Lula já entrou para a história como o presidente mais velho a assumir o comando do Brasil. Com o aniversário em 27 de outubro, ele iniciará o próximo mandato aos 81 anos, tornando a idade um dos temas presentes no debate eleitoral.
Durante a campanha, o petista procurou demonstrar disposição física e capacidade para continuar no cargo. Em discursos e publicações nas redes sociais, destacou sua rotina de exercícios, incluindo sessões de musculação e atividades físicas durante compromissos oficiais.
Lula também recorreu à ideia de que a disposição para governar está relacionada à existência de objetivos e causas, e não apenas à idade. A estratégia procurou afastar questionamentos sobre sua capacidade de cumprir mais quatro anos de mandato.
A posse presidencial está prevista para 5 de janeiro de 2027, conforme o calendário estabelecido pela mudança constitucional que alterou a data de início dos mandatos presidenciais. O novo período de governo deverá se estender até o início de 2031.
Da metalurgia à Presidência da República
Nascido em Garanhuns, no interior de Pernambuco, Lula construiu sua trajetória política a partir do movimento sindical. Metalúrgico de formação, ganhou projeção nacional ao participar das mobilizações trabalhistas no fim da década de 1970 e fundar o Partido dos Trabalhadores, em 1980.
Sua primeira candidatura à Presidência ocorreu em 1989. Depois, disputou as eleições de 1994 e 1998, sendo derrotado nas três ocasiões. A vitória veio em 2002, quando foi eleito presidente e iniciou seu primeiro mandato em janeiro de 2003.
Reeleito em 2006, Lula permaneceu no cargo até 2010. Durante os dois primeiros governos, programas de transferência de renda, valorização do salário mínimo e ampliação do acesso ao ensino superior se tornaram marcas de sua administração. O período também foi acompanhado por denúncias e investigações de corrupção que atingiram integrantes do governo e do PT.
A crise política se aprofundou nos anos seguintes, especialmente com o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016, e a prisão de Lula, em abril de 2018, no contexto da Operação Lava Jato.
Em 2019, após 580 dias preso, o petista deixou a prisão. Em 2021, o Supremo Tribunal Federal anulou suas condenações relacionadas aos processos julgados pela Justiça Federal de Curitiba, em razão de questões de competência e de decisões judiciais sobre os casos.
Livre para disputar eleições, Lula voltou à corrida presidencial em 2022 e derrotou Jair Bolsonaro no segundo turno, retornando ao Palácio do Planalto em janeiro de 2023.
Terceiro governo foi marcado por avanços e derrotas políticas
O terceiro mandato de Lula teve como uma de suas principais características a retomada de programas sociais associados às administrações anteriores, como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida. O governo também adotou o lema “União e Reconstrução”, com a proposta de recuperar políticas públicas e reduzir a polarização política no país.
A administração, contudo, enfrentou dificuldades na relação com o Congresso Nacional. Entre os episódios de maior repercussão estiveram disputas envolvendo a política tributária, o licenciamento ambiental e o marco temporal das terras indígenas, além de derrotas em votações consideradas estratégicas pelo Palácio do Planalto.
A articulação política também passou por mudanças, com substituições em ministérios e na Secretaria de Relações Institucionais. Parte das alterações ocorreu em meio a crises, enquanto outras teve como objetivo fortalecer a relação do governo com parlamentares e ampliar a capacidade de negociação no Legislativo.
No campo internacional, as relações com os Estados Unidos ganharam destaque após medidas tarifárias e sanções adotadas pelo governo norte-americano contra brasileiros e produtos nacionais. O episódio colocou a defesa da soberania nacional e as negociações comerciais entre os países no centro do discurso governista.
A gestão também enfrentou crises ministeriais, incluindo a saída de integrantes do primeiro escalão após denúncias e investigações. As mudanças afetaram diferentes áreas do governo e ampliaram a pressão sobre a equipe presidencial.
Quarto mandato começa sob expectativa de novos desafios
A reeleição representa uma vitória política expressiva para Lula, que conseguiu reverter o resultado do primeiro turno e assegurar a continuidade de seu projeto de governo. Ao mesmo tempo, o novo mandato terá como desafios a articulação com o Congresso, a condução da economia, a manutenção dos programas sociais e a reconstrução do diálogo entre diferentes setores da sociedade.
Com a permanência de Geraldo Alckmin como vice-presidente, Lula inicia uma nova etapa de sua trajetória política, marcada por uma combinação de experiência administrativa, forte apoio popular e resistência de setores da oposição.
O resultado de 2026 também reforça o peso da polarização na política brasileira. A disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro demonstrou que a divisão política permanece como um dos principais fatores de mobilização eleitoral no país, com reflexos sobre a governabilidade e os rumos do Brasil nos próximos quatro anos.


