Rio Branco, AC 18 de setembro de 2026 13:10
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Tudo menos STF

Lula tirou da cartola um reajuste do Bolsa Família, colocou na incubadora um Desenrola 2027, está de malas prontas para embarcar para Nova York para a Assembleia Geral da ONU a menos de duas semanas da eleição e prometeu até caneta emagrecedora no SUS. Qualquer assunto serve para virar a página da crise do Supremo Tribunal Federal (STF). Só falta os ministros sairem do meio do ringue e se tocarem de que o Palácio quer que voltem para atrás das cortinas.

A quinta-feira mostrou que eles ainda estão no veneno. Flávio Dino autorizou investigação da Polícia Federal e da Comissão de Valores Mobiliários de repasses feitos pelo Master à concessionária que opera cemitérios municipais de São Paulo. A decisão se deu na mesma ação em que apareceu a menção a um encontro entre André Mendonça e Daniel Vorcaro, mas, ao abrir a investigação, Dino fez questão de frisar que ela não deve atingir o colega.

Gilmar Mendes voltou à carga nas redes sociais contra o relator do Master, reeditando as críticas pela menção ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, na petição em que pede a investigação de Alexandre de Moraes e voltando a chamar Mendonça de “pixuleco eleitoral”.

Nada disso é o que Lula quer ver nas manchetes daqui até 4 de outubro. As pesquisas mostram um empate incômodo para o presidente com Flávio Bolsonaro, adversário que ele e o PT subestimavam, desejavam e achavam que seria fácil de bater.

A crise no STF produziu um efeito para lá de esdrúxulo: Flávio vem tentando surfar na indignação nacional e escamotear o próprio e grave envolvimento com Vorcaro. De alguma forma, parece colar. Começaram a circular nas redes sociais correntes de que é preciso que eleitores dos demais candidatos de direita fazerem mobilização em prol do candidato do PL para “acabar com essa vergonha”. Realmente é espantosa a capacidade da extrema direita de plantar narrativas totalmente desprovidas de base na realidade

Diante de um cenário que poderia até evoluir para um risco de derrota no primeiro turno, Lula mandou às favas qualquer verniz fiscalista que seus assessores econômicos vinham tentando dar a seu governo — ele mesmo nunca ligou para acenar com corte de gastos, como se viu na entrevista que concedeu ao Jornal Nacional.

O reajuste do Bolsa Família na antessala das urnas e outras medidas que ainda podem vir à luz daqui até o dia 4 visam a estancar a sangria de popularidade do presidente, para a qual o barraco sem fim do STF vem contribuindo enormemente.

Nessa reta final, as atenções do governo e do comando da campanha de Lula se voltam ainda ao risco de novas e disparatadas medidas serem adotadas pelo governo Donald Trump para tentar causar mais danos à frágil popularidade do petista e, se possível, ajudar Flávio nesse sprint para tentar liquidar a fatura no primeiro turno.

Com essa variável no radar, ele tomou a arriscada decisão de confirmar o tradicional discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU, para a qual embarca neste domingo. O tom da fala do pode amortecer ou incendiar relações que já vêm numa montanha-russa há mais de um ano, entre sanções e declarações simpáticas ditadas pela forçada “química” entre dois antípodas ideológicos.

Diante do risco de encerrar sua carreira eleitoral com uma derrota para alguém que ninguém jamais imaginaria sequer como candidato a presidente, não fosse o desígnio do pai preso, Lula resolveu tirar a rede de proteção e partir para medidas que podem gerar dividendos, mas embutem grande risco colateral.

Se funcionará ou não, dependerá de fatores que ele não controla, como o voluntarismo dos ministros do STF e de Trump. Para quem, no passado, já navegou em índices de popularidade de 80% e elegeu postes só de carona na própria aura, é um cenário de incerteza que certamente ele não se preparou para enfrentar.

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