Rio Branco, AC 4 de setembro de 2026 14:40
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O testamento inacabado de Getúlio Vargas

No primeiro 1º de maio após seu retorno à Presidência da República, em 1951, depois da deposição em 1945 e 15 anos de poder e de ter sido novamente eleito presidente em 1950, Getúlio Vargas pronunciou um significativo discurso no Estádio de São Januário, no Rio de Janeiro.

A memória de Getúlio Vargas tem sido desfigurada e manipulada para nele ressaltar o ditador, que ele foi no Estado Novo, de 1937 a 1945. Ele foi um estadista peculiar, de um país atrasado, em que uma minoria de pessoas esclarecidas, como Roberto Simonsen, fundador da Fiesp, tinha clareza de que o Brasil tinha possibilidade de diferençar-se do que fora até 1929.

Havia, difusa, entre nós, uma ideologia nacionalista e desenvolvimentista que vislumbrava a necessidade política de que o país se desvencilhasse das amarras da economia colonial dos ciclos sucessivos – pau-brasil, cana-de-açúcar, ouro, café.

Já nos anos 1920 e praticamente desde o fim da escravidão várias regiões do Brasil haviam começado a desenvolver a indústria de bens de consumo para o mercado interno. E, também, nos interstícios dessa industrialização, uma indústria de bens de capital como seções complementares à de bens de consumo.

O clima de guerra da década de 1930, o desencadeamento da guerra em 1939 e a entrada dos americanos na guerra em 1941 definiram uma conjuntura de possibilidades para o desenvolvimento industrial brasileiro. Em 1942 foi instalada a Base Aérea americana de Natal. Através de um esquema de apoio e cooperação, os militares brasileiros tiveram a perspicácia de evitar uma ocupação militar americana do Nordeste. Em 1943, foi criada a Força Expedicionária Brasileira, que entrou na guerra na Itália, em 1944.

Nesse clima de disponibilidade americana para negociar e de demora brasileira para entrar no campo de batalha, Getúlio conseguiu dos americanos os meios para instalação da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda. Base para alicerçar o Brasil industrial.

Em 1932, os paulistas haviam se rebelado contra Getúlio na Revolução Constitucionalista e perderam. De grande lucidez política, Getúlio tinha clara consciência de que sem São Paulo o Brasil não superaria a crise de 1929. A indústria se tornara inevitável como saída para o Brasil.

A salvação da economia estava no mercado interno. O discernimento do ministro da Fazenda de Getúlio, o paulista José Maria Whitaker, exportador de café e banqueiro, como se vê em seu relatório de 1933, implantou a política de compra e queima dos estoques de café, de modo a fazer da crise um instrumento do fluxo de renda com o qual os fazendeiros pagavam os colonos que assim podiam comprar os produtos de consumo que não havia como importar sem moeda forte. Consumindo produtos da indústria brasileira. Quando a guerra terminou, o Brasil já estava industrializado.

O temor americano de uma potência industrial latino-americana no quintal de casa foi sutilmente combatido por meio da proximidade e aliança entre militares brasileiros e americanos firmada durante a guerra, cilada para o projeto personificado por Vargas.

No discurso de 1951, Getúlio dirigiu-se aos trabalhadores em defesa da proposta nacionalista. O projeto nacional de um Brasil livre e autônomo, industrializado e desenvolvido, estava ameaçada. Sua deposição em 1945 fora o sinal evidente disso. Como foram evidentes os pretextos e os objetivos.

Getúlio começou com o pausado e solene “Trabalhadores do Brasil!”, que estabelecia uma conexão automática com a massa de seus ouvintes, ao vivo ou pelo rádio. Ele conseguia fazer da massa sua coadjuvante. Ele se antecipava na definição de objetivos sociais da política do Estado, com a particularidade de nela sempre ter presente metas de emancipação da classe trabalhadora.

Getúlio retomava o que não era um outro e novo discurso, mas o discurso interrompido por sua deposição, o discurso de um projeto de nação com o protagonismo da classe trabalhadora. O discurso-testamento falava em social-democracia e em protagonismo dos trabalhadores. Quando, enfim, até mesmo um trabalhador poderia chegar ao poder.

Uns dias antes do suicídio de Getúlio, em 1954, foi criada a Diocese de Santo André no âmago da região industrial de São Paulo. O novo bispo, Dom Jorge Marcos de Oliveira, veio para transformar os operários católicos em protagonistas da história social.

Lá na Vila Carioca, ao lado da Favela de Heliópolis, onde morava e jogava futebol de várzea, em campinhos que eu também conheci, Lula tampouco tinha ideia de que ele era o escolhido do projeto histórico-social pelo qual Getúlio morrera. Nem Dom Jorge teve oportunidade de ver o poder abrir-se para o protagonismo dos trabalhadores.

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