Rio Branco, AC 1 de setembro de 2026 16:42
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Sintoma e diagnóstico

O sonho de Ronaldo Caiado, o candidato a presidente da República do PSD, era chegar a esta altura da campanha com dois dígitos nas pesquisas de opinião. Achava que, a partir daí, subiria para enfrentar Lula no segundo turno. Quem chegou lá, pelo menos pelas pesquisas digitais e telefônicas de opinião, foi o escritor Augusto Cury, candidato do Avante, um azarão verdadeiro — não confundir com o filme “Dark Horse”. Pelo menos até agora, não há indicação de que Cury tenha alguma ligação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, mas, como ele acaba de entrar no jogo, sua vida será revirada pelo avesso.

A subida inesperada do autor best-seller de livros de autoajuda reflete, num primeiro momento, a fuga para a frente de eleitores que buscam alternativa à polarização entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro. Esse lugar já foi de Renan Santos, do Missão, mas ele parece ser muito agressivo para o gosto médio do eleitorado. O Cury candidato parece ter se encontrado com o Cury escritor em meio à campanha. Começou a ser identificado por muitos dos milhões de leitores que já procuraram sua ajuda na leitura. Outros tantos já o haviam rejeitado como candidato a presidente. Não se sabe o que decantará dessa arrancada nas sondagens, que precisam ser comprovadas nesta semana pelas pesquisas do Datafolha e da Quaest, os dois principais institutos de pesquisa atuando no país.

Alguma coisa certamente se mexeu na disputa presidencial, e — como Cury diz ser de direita na cabeça, mas de esquerda no coração — ele tira no momento votos de vários candidatos, um pouco de Lula e Renan, a maior parte de Flávio. Não é à toa que tanto a campanha de Lula quanto a de Flávio apoiam Renan contra a punição determinada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, que suspendeu verbas e o proibiu de participar de debates e fazer campanhas nas redes sociais.

A saída de Renan, e a aparição de Cury, muda o panorama da disputa, embora não haja indicação ainda de que o escritor poderá disputar com Flávio a ida ao segundo turno. Renan, com sua bomba atômica e seus banhos de sangue, parece já ter chegado ao limite e não assusta seus adversários, só os eleitores. Cury é a incógnita chegando a bordo de drones, embaixadores influencers, uma vida digital que se parece muito com uma promessa de futuro empoderado, embora não saiba explicar como chegaremos lá.

Tanto pode cair lá de cima, quanto acelerar para o alto, diante do desalento do eleitorado em busca de uma alternativa melhor que os dois líderes nas pesquisas. No momento, a questão é mais saber se ele terá fôlego para continuar a escalada na opinião pública ou se é mais um cavalo paraguaio que se cansa em meio à arrancada final. Seu partido, Avante, tem garantida a presença em debates nos meios de comunicação, mas tempo mínimo de propaganda no rádio e televisão. Sua campanha digital, no entanto, tem se mostrado eficiente, provavelmente pelo apoio do influenciador Pablo Marçal, que quase obteve sucesso na recente disputa pela Prefeitura de São Paulo.

O fato de Cury ser psiquiatra ajuda a alavancar seu prestígio entre o eleitorado, mas leva à piada pronta que o compara a Simão Bacamarte, o médico que encarcera toda a população de Itaguaí num manicômio e acaba, ele mesmo, lá dentro, em “O alienista”, de Machado de Assis. O Brasil seria um manicômio que necessita de um psiquiatra para curá-lo. A escolha do slogan “Cury para curar o Brasil” mostra que, para o candidato, o país está doente, e ele se apresenta como o salvador. Saberemos daqui para frente se o diagnóstico do doutor Cury coincide com a percepção da maioria dos eleitores brasileiros e os tirará da letargia em que se encontram. Ou se seu crescimento nas pesquisas é apenas mais um sintoma da doença de nossa República.

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