Rio Branco, AC 2 de setembro de 2026 13:57
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Política sem imaginação

Por que as alternativas a Lula da Silva e a Flávio Bolsonaro não decolam se 39%-40% das pessoas de 25 a 59 anos e 34% daquelas entre 16 e 24 anos afirmam estar cansadas ou desconfortáveis com a polarização, conforme pesquisa BTG/Nexus deste ano (Adultos lideram cansaço com polarização e jovens são mais complacentes , Coluna do Estadão, 10/8, A2)? Some-se a isso o fato de que petistas e bolsonaristas correspondem a apenas 16% e 13% da população, respectivamente, conforme pesquisa realizada pelo ConnectLab, Centro de Estudos da Escola de Economia de São Paulo (FGV EESP), no ano passado.

Uma resposta possível é que, embora os eleitorados mais fiéis sejam minoritários, as duas candidaturas organizam o campo político praticamente sozinhas. Desse modo, contribuem para uma espécie de efeito paralisante que, no Brasil de hoje, compromete nossa já rarefeita capacidade de imaginar outros futuros políticos para além daqueles propostos pelas forças políticas atuais.

Esse diagnóstico se apoia numa percepção inicial. O que parte de nós chamamos de realidade por vezes decorre menos do que vemos e mais do que queremos ver: numa inversão da conhecida máxima popular (“só acredito no que vejo”), uma parcela dos brasileiros só vê o que acredita. Isso é reflexo de anos de ataques à realidade, com alvos variados: ineficácia de vacinas, negacionismo climático, fraude em urnas eletrônicas. A isso se somam divergências profundas sobre o significado de fatos e políticas: Bolsa Família, defesa da democracia, o papel do Supremo Tribunal Federal (STF), relação com os Estados Unidos e outros. O resultado é uma sociedade que mal compartilha parâmetros comuns para interpretar a realidade.

Ocorre que uma tal sociedade provavelmente terá mais dificuldade em projetar um futuro comum. Afinal, não imaginamos o amanhã a partir do nada, mas da leitura que fazemos do presente. Sem uma leitura compartilhada, imaginar o futuro do País tende a desaguar na mera reprodução do presente. Ou do passado, dado que parte da sociedade se amarra a nostalgias regressivas, o que, no Brasil, se vê nos clamores pela volta do modelo da “família tradicional”, na oposição ao protagonismo social da mulher ou na idealização de modelos econômicos do passado.

A agravar o quadro, a dinâmica desse embate político-eleitoral. Como mostra a pesquisa do ConnectLab, petistas e bolsonaristas interagem predominantemente entre si. O efeito desse insulamento já foi examinado neste espaço, e consiste especialmente na intensificação das crenças e opiniões intragrupo, o que concorre para um tipo de politização em que vínculos afetivos prevalecem sobre padrões impessoais de deliberação. Daí, interações e confirmações obtidas no interior do próprio grupo tornam seus adeptos menos receptivos a evidências contrárias e mais resistentes à correção. Em outras palavras: tendentes a reconhecer, sobretudo, o que já conhecem.

Há, ainda, um segundo traço desse ambiente: nos últimos anos, ao redor do mundo, a política tornou-se simultaneamente mais presente e mais efêmera. Informações, controvérsias e mobilizações online se sucedem vertiginosamente, quase sempre sob o signo da emergência: cada acontecimento exige reação imediata e logo cede lugar ao próximo, numa “hiperpolitização” que ocupa o espaço público, mas mal converte preferências em ações coletivas (vide Hyperpolitics: extreme politicization without political consequences, de Anton Jäger). Em outras palavras: o envolvimento político se intensifica sem necessariamente se traduzir em políticas.

Isso enfraquece a esperança de que o futuro possa ser diferente. Afinal, a esperança não se reduz a um simples desejo: pressupõe também alguma crença de que aquilo que se deseja possa realizarse. O desejo pode persistir, mas, quando é difícil imaginar o futuro, é difícil crer em sua realização.

É aqui que a citada polarização eleitoral mostra sua dupla face. De um lado, ela é consequência de um ambiente em que referenciais sobre a realidade se desgastam e a capacidade de conceber e acordar alternativas ao presente se enfraquece. De outro, torna-se também causa da manutenção desse mesmo quadro, já que, ao reduzir a disputa pública à reafirmação de visões e posições já dadas, reforça a percepção de que não há caminhos viáveis além dos já conhecidos.

O futuro, então, passa a ser projetado conforme as aspirações de cada campo político, e o sucesso de uma ideia depende menos de sua capacidade de oferecer caminhos do que de sua utilidade para reafirmar posições já consolidadas. A lógica da polarização passa a organizar tanto a percepção da realidade quanto a imaginação do futuro.

Esse diagnóstico parece valer não apenas para os eleitores mais fiéis das duas candidaturas citadas. Ele se estende pela população na medida em que essa polarização passa a definir os termos do debate público. Assim, ela ocupa não apenas o espaço eleitoral, mas também o do imaginável.

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