Rio Branco, AC 6 de julho de 2026 13:06
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Disputa expõe rearranjos do bolsonarismo

A troca pública de críticas entre o senador Flávio Bolsonaro e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro expôs uma disputa pelo espólio eleitoral do ex-presidente Jair Bolsonaro e lançou dúvidas sobre o futuro do bolsonarismo, no momento em que sua principal liderança está impedida de atuar publicamente como um árbitro e a pré-candidatura do clã à Presidência, liderada por Flávio, enfrenta obstáculos.

Na visão de especialistas que pesquisam movimentos de direita, a crise não deve significar o esvaziamento do bolsonarismo como força política, mas acirra a briga por espaço e reorganiza segmentos que se aglutinaram em torno de Bolsonaro – hoje em prisão domiciliar, determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), após a condenação por tentativa de golpe de Estado.

Na sexta-feira (3), o ministro Alexandre de Moraes prorrogou a prisão domiciliar do ex-presidente, condenado a 27 anos e três meses de prisão. A defesa argumentou que o quadro de saúde de Bolsonaro ainda é delicado e que ele receberia melhores cuidados em casa. O prazo de 90 dias do benefício tinha se encerrado em 25 de junho. Na nova decisão, Moraes não definiu a duração. Ele ainda revogou o porte de uma arma do ex-presidente que foi apreendida no mês passado.

Embora ainda não esteja claro o papel que Michelle vá desempenhar na eleição – ela não confirma a pré-candidatura ao Senado pelo Distrito Federal -, a avaliação é que seu distanciamento da futura campanha de Flávio possa abalar a confiança de setores religiosos, além de ser um desafio a mais para quebrar resistências no eleitorado feminino.

A cientista política Thais Pavez, uma das autoras do estudo “Bolsonarismo sem Bolsonaro?”, de 2024, afirma que o risco de prejuízo eleitoral existe no segmento das mulheres evangélicas, que veem em Michelle “uma representante própria”, mas “ainda é cedo para falar de um deslocamento de segmentos da base”.

“Michelle é uma liderança que construiu o capital político dela, diferentemente do Flávio. Ela foi capaz de mobilizar gente na rua, em Marchas para Jesus e caravanas pelo país, e atuou como uma das vozes centrais da guerra espiritual que caracterizou a campanha de 2022, com a ideia de bem contra o mal”, diz Pavez.

Para ela, existe “um conflito a respeito de quem vai liderar o projeto bolsonarista”, enquanto parte da base entende que Michelle “pode dar continuidade ao projeto de transformação profunda da sociedade e de combate à chamada ‘inversão de valores’ [iniciado por Bolsonaro]”.

O custo do racha familiar para a votação de Flávio, caso ele confirme a candidatura ao Planalto, ainda é incerto, mas qualquer perda pode ser prejudicial, em um pleito que se desenha acirrado contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato do PT e hoje à frente nas pesquisas.

A construção do “bolsonarismo sem Bolsonaro”, como define o cientista social Jonas Medeiros, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), tem sido precipitada em consequência da prisão e da inelegibilidade do ex-presidente.

“Isso realmente alimenta disputas internas. O que está em jogo nestas eleições de 2026 é o quanto o clã Bolsonaro vai conseguir manter o controle sobre o próprio campo político, mas também sobre a parte da direita brasileira que não vê problema algum em se aliar a um projeto político com características autoritárias e subordinado aos interesses dos Estados Unidos, sob Donald Trump”, diz Medeiros.

Segundo ele, que é coautor de um livro sobre a ascensão de Bolsonaro, a dúvida é se os filhos vão conseguir manter setores aliados sob comando “sem atuação pública direta do Jair”. Ao mesmo tempo, o especialista cogita uma aposta do clã na saída “mais racional”: seria preferível amargar uma derrota com Flávio em 2026 a perder a força predominante que hoje exerce na oposição.

A antropóloga e professora Isabela Kalil, que é coordenadora do Observatório da Extrema Direita, acrescenta que outro objetivo no horizonte da família é uma reabilitação política de Jair Bolsonaro, o que só ganharia corpo com uma vitória de um aliado. “Nem todos os cálculos estão baseados na vitória eleitoral. A manutenção da hegemonia na direita e um possível perdão a Bolsonaro são os eixos que hoje mobilizam o bolsonarismo”, diz.

Segundo Kalil, o movimento sempre funcionou como uma aglutinação instável de diferentes grupos conservadores, por vezes até divergentes entre si. “O que estamos vendo de diferente agora é essa corrida pela sucessão a partir de disputas familiares, e tudo isso sem o Bolsonaro, que antes vinha como o fiel da balança, para dizer que diretriz tomar. Claro que uma fragmentação tira força [do bolsonarismo], mas não significa dizer que necessariamente esteja se desfazendo.”

Joelmir Tavares, jornalista
Fonte: https://valor.globo.com/