Rio Branco, AC 13 de maio de 2026 05:00
HOME / BRASIL/MUNDO / Quem é o ex-líder alemão que Putin sugeriu para negociar paz na Ucrânia

Quem é o ex-líder alemão que Putin sugeriu para negociar paz na Ucrânia

Gerhard Schröder é amigo de longa data de Vladimir Putin e muito criticado na Alemanha por sua proximidade com o Kremlin, o que lhe rendeu vários cargos em empresas russas

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, sugeriu neste sábado (09/05) o ex-chanceler federal alemão Gerhard Schröder como um possível mediador em negociações de paz para encerrar a guerra na Ucrânia.

Após o desfile militar comemorativo ao fim da Segunda Guerra Mundial em Moscou, Putin declarou que não consegue imaginar um interlocutor mais adequado do lado europeu do que o veterano do Partido Social-Democrata (SPD). “De todos os políticos europeus, eu preferiria conversar com Schröder”, afirmou.

Schröder foi chanceler federal da Alemanha por dois mandatos, entre 1998 e 2005. Em 2003, ele ficou conhecido internacionalmente por se opor à participação alemã na invasão do Iraque pelos Estados Unidos. Na época, os americanos formaram a chamada “coalizão dos dispostos”(coalition of the willing), à qual se uniram diversos aliados europeus, incluindo o Reino Unido e a Espanha, mas não a Alemanha.

Durante seu mandato como chanceler, Schröder não diferia muito de políticos alemães na sua postura de uma política externa pró-Rússia. Outros líderes alemães, incluindo os futuros chanceleres federais Angela Merkel e Olaf Scholz, bem como o atual presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, também desempenharam um papel no fortalecimento dos laços entre Berlim e Moscou por meio de projetos como os gasodutos Nord Stream.

Mas o que diferenciou a posição de Schröder da dos demais foi seu apoio à Rússia mesmo com a invasão da Ucrânia e a crescente indignação pública na Alemanha com a guerra iniciada por Putin. Isso afastou o ex-chanceler federal da elite política alemã, e o seu próprio partido, que ele liderou e pelo qual foi eleito chanceler, tentou expulsá-lo.

Uma longa amizade

Schröder é amigo de Putin desde que se tornou chanceler federal da Alemanha, em 1998. Ele chegou a participar do aniversário do presidente russo em Moscou, em 2014. Em 2004, afirmou, numa declaração que se tornaria famosa, que Putin era um “democrata impecável”(em alemão lupenreiner Demokrat).

Após deixar o cargo, Schröder passou a ser criticado por seu profundo envolvimento com empresas de energia estatais russas, como a Rosneft, Nord Stream e Gazprom. Em 2006 ele foi um dos principais intermediários na negociação que tornou a Gazprom patrocinadora master do time alemão Schalke 04. O patrocínio só acabou em 2022, justamente por causa da invasão da Ucrânia pela Rússia.

Schröder também aprovou o primeiro gasoduto Nord Stream pouco antes de deixar o cargo, em 2005, e, em 2016, entrou para o conselho da empresa responsável pelo segundo gasoduto, o Nord Stream 2 – que acabou nunca indo adiante por causa da guerra na Ucrânia.

O social-democrata também deveria integrar o conselho de supervisão da Gazprom em 2022, mas acabou desistindo diante da crescente pressão após a invasão da Ucrânia. Pelo mesmo motivo ele também deixou a presidência do conselho de administração da petrolífera russa Rosneft, cargo que ocupava desde 2017.

Fortemente criticado

Numa entrevista em 2020 ao tabloide alemão Bild, o líder oposicionista russo Alexei Navalny (que morreria numa prisão na Sibéria no início de 2024) criticou Schröder por sua estreita relação com Putin. “Gerhard Schröder é pago por Putin”, disse Navalny.

“Ele ainda é ex-chanceler do país mais poderoso da Europa”, afirmou Navalny. “Agora ele é um garoto de recados do Putin e protege assassinos.”

Na época, o especialista em política externa da conservadora União Democrata Cristã (CDU) Norbert Röttgen disse que a posição de Schröder no caso Navalny (o ex-chanceler afirmara não haver provas concretas de que Navalny havia sido envenenado) “enche muitos na Alemanha de vergonha”.

Logo após a invasão da Ucrânia pela Rússia, políticos da CDU e do Partido Verde exigiram que Schröder deixasse o cargo de presidente do conselho de diretores do projeto Nord Stream 2, bem como todos os seus outros cargos na Rússia. Schröder foi acusado de fazer lobby para o Kremlin.

A sucessora dele, Angela Merkel, da CDU, havia aprovado o segundo projeto de gasoduto em 2018.

Diante da recusa de Schröder de se afastar de Putin e de abandonar seus cargos em empresas russas, o Bundestag (Parlamento alemão) retirou dele, em maio de 2022, o privilégio concedido a ex-chanceleres federais de manterem um escritório e equipe financiados pelo Estado.

Semanas depois, Schröder viajou a Moscou para se encontrar com Putin e discutir uma “solução negociada” para a Ucrânia – um movimento que o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, chamou de “repugnante”.

Numa entrevista de 2024, Schröder disse que negociações com Putin podem ser a única forma de encerrar a guerra na Ucrânia. “Trabalhamos juntos de forma sensata por muitos anos. Talvez isso ainda possa ajudar a encontrar uma solução negociada; não vejo outra solução”, afirmou à agência de notícias alemã DPA.

Uma relação pessoal pela paz?

Nessa entrevista, Schröder foi questionado sobre o motivo de manter sua amizade com Putin apesar dos crimes de guerra atribuídos à Rússia. Ele respondeu dizendo que se tratava de duas coisas distintas.

Schröder disse não querer esquecer os “eventos positivos” com Putin e considerou que sua relação pessoal poderia ser útil para lidar com um problema político complexo. “É evidente que a guerra não pode terminar com a derrota total de um lado ou do outro”, argumentou.

Num artigo publicado no jornal Berliner Zeitung em janeiro deste ano, Schröder reconheceu que a invasão russa contrariava o direito internacional. “Mas também sou contra demonizar a Rússia como um inimigo eterno”, acrescentou, para então defender que a Alemanha retome as importações de energia russa, que foram interrompidas por causa do conflito.

De líder da ala jovem a chanceler federal

Nascido em 7 de abril de 1944 em Blomberg, no centro-oeste alemão, Schröder entrou pela o SPD em 1963. De início bastante esquerdista, tornou-se presidente do Grupo de Trabalho dos Jovens Socialistas (Jusos) da legenda. Porém logo adotaria uma postura mais realpolitik, tornando-se homem de poder e bon vivant.

Formado em direito, ele atuava como advogado em Hannover. Em 1980, foi eleito deputado para o Bundestag. Em 1990, elegeu-se governador da Baixa Saxônia, e oito anos mais tarde consagrava-se chanceler federal, o terceiro social-democrata da República Federal da Alemanha, mas o primeiro à frente de uma coalizão com o Partido Verde. Um ano mais tarde, assumia também a liderança do SPD.

Schröder sempre gostou de se autoencenar, além de ser anticonvencional: comia salsichas currywurst de pé e bebia cerveja no gargalo, mesmo se de terno fino, sapatos feitos sob medida, fumando charutos caros.