Rio Branco, AC 13 de junho de 2026 12:23
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Xandonismo cultural

O gênio que não voltaria mais à lâmpada nunca foi Xandão, o indivíduo; que, nalgum tempo, passará, descartável cedo ou tarde. Não voltará mais à lâmpada o código autoritário de precedentes xandônicos que, difundido como para defender a democracia, restabeleceu a censura entre nós.

Em 2022, o TSE de Alexandre de Moraes censurou previamente um filme. Para proteger a eleição do que arbitrou ser desinformação, censurou. Conjunto então aplaudido, pois combatia golpistas. Né? Conjunto ora disponível a quem lhe quiser lançar mão. A isso servem os precedentes. Conjunto de que se serve Nunes Marques. A interferência submetendo o comedimento; subjugando o valor de que, se em xeque a circulação livre das informações, melhor será errar pela mão leve – para garantir que circulem. Nunes Marques se serve da mão pesada – para nos proteger de nós mesmos.

Nunes Marques censurou. Ministro do STF censurou pesquisa. Entrando no terreno da subjetividade, o apadrinhado de Ciro Nogueira identificou – na formulação-ordenação das perguntas – indícios de indução que contaminaria as respostas. Lançou mão do conceito aberto de capciosidade para definiracusar uma questão sobre qual grupo político estaria mais envolvido no esquema de fraudes financeiras do Master – pergunta que parecia “tomar como fato a própria existência do esquema e o envolvimento dos grupos políticos, sem ofertar alternativa para rejeitar a premissa”.

A existência do esquema é um fato, esquema cuja teia se enreda também no poder piauiense, razão por que será legítimo questionar se estaria o ministro habilitado a se manifestar sobre tema que toque em Master.

A existência do esquema no imaginário do eleitor é fato que precisa ter o pulso tomado. A existência do fato “caso Master”, pauteiro do debate público, tem materialidade política, agente condicionador que precisa ser aferido, medido permanentemente o seu impacto sobre os humores eleitorais. Foi o que a pesquisa Atlas impugnada pretendeu captar, em função do marco “descoberta das relações entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro”: o efeito do episódio na percepção do eleitor sobre grupos políticos no ano eleitoral.

As pessoas devem ser capazes de lidar com propaganda, manipulação e mentira. São os candidatos que se contaminam, a partir das escolhas que fazem. Procurar neutralidade em questionário que tem por objetivo estimar grau de contaminação sobre uma candidatura será avançar em terreno estimulante de guerra de suspeições, por suspensões. Se prosperar a tese de Nunes Marques, a busca pelo que seria o limite do induzimento produzirá censura em série sobre levantamentos de institutos variados.

Sob o Direito Xandônico, o TSE normalizou a censura. O TSE babá. Porque será sempre pelo nosso bem, incapazes, nós, de discernir, de lidar com as informações, de distinguir e fazer escolhas – e então será um Moraes, um Nunes Marques, a definir aquilo a que devemos-podemos ter acesso sem que sejamos contagiados pelo vício.

Carlos Andreazza, jornalismo
Fonte: https://www.estadao.com.br/