Presidente dos EUA diz que é necessário “consertar o país primeiro” e volta a descartar Maria Corina Machado para guiar país após a captura de Maduro
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rejeitou nesta segunda-feira (05) a possibilidade de novas eleições na Venezuela nos próximos 30 dias, alimentando a indefinição política e especulações sobre o futuro do país após a captura do presidente Nicolás Maduro pelos EUA, no sábado passado.
“Temos que consertar o país primeiro. Não dá para fazer eleições. Não há como o povo votar”, disse Trump em entrevista por telefone à emissora NBC News.
Mesmo perante a indefinição em relação ao futuro político do país sul-americano, Trump está certo de uma coisa: ele não apoia a participação da líder da oposição, María Corina Machado. Na entrevista à NBC News ele negou que Machado seja uma interlocutora válida para guiar o país após a captura de Maduro.
Trump já dissera anteriormente que Machado, que venceu o Prêmio Nobel da Paz de 2025 por seu empenho em promover uma transição democrática no país, é “uma mulher muito simpática”, mas não tem o “apoio” ou o “respeito” necessários para governar o país.
Impedida de concorrer na eleição presidencial de 2024 pelo governo Maduro, Machado liderou a campanha de seu substituto, Edmundo González Urrutia. Ela mobilizou milhões de venezuelanos e coordenou uma rede nacional de fiscalização que coletou e digitalizou atas eleitorais. Esses documentos, segundo a oposição, comprovam que González venceu a disputa e que o regime de Maduro ocultou os resultados oficiais e manipulou o processo para se manter no poder.
Muitos venezuelanos ficaram chocados com a decisão de Trump de excluir Machado da transição. Quem tomou posse como chefe interina do governo, nesta segunda-feira, foi a vice de Maduro, Delcy Rodríguez, um quadro histórico do chavismo. Ela estendeu a mão ao governo Trump e se ofereceu para “colaborar” com os EUA.
Integram ainda o governo interino o ministro do Interior de Maduro, Diosdado Cabello, e o poderoso ministro da Defesa, Vladimir Padrino López. Cabello, em particular, é uma figura temida por muitos venezuelanos, depois de ter comandado a repressão aos protestos pós-eleitorais em 2024, que resultaram na prisão de cerca de 2.400 pessoas e ao menos 24 mortes.
Na entrevista à NBC News, Trump disse que Rodríguez está cooperando com as autoridades americanas. “Tenho a sensação de que está cooperando. Precisam de ajuda. E tenho a sensação de que [Rodríguez] ama seu país e quer que seu país sobreviva”, afirmou.
Ele acrescentou que não houve contato de Washington com Rodríguez antes da operação militar que capturou Maduro e sua esposa, Cilia Flores, em Caracas.
Coordenação da transição
Trump afirmou ainda que os secretários de Estado, Marco Rubio, e da Defesa, Pete Hegseth, e o assessor para temas de Segurança e Migração, Stephen Miller, estarão a cargo de coordenar a transição na Venezuela e incluiu também na equipe encarregada da Venezuela o vice-presidente JD Vance.
À pergunta sobre quem será nesse grupo o principal responsável por tomar decisões sobre a Venezuela, Trump se limitou a dizer que ele mesmo terá a última palavra. “É um grupo de todos. Todos são especialistas em diferentes [campos]”, afirmou.
O jornal The Washington Post publicou na noite de domingo que a Casa Branca estava considerando Miller, o arquiteto da política anti-imigração do governo Trump, para um papel mais elevado na gestão da Venezuela.
O secretário de Estado, Marco Rubio, disse no domingo que os responsáveis americanos por dirigir a transição na Venezuela o farão a partir de um âmbito de “políticas” e que será um “esforço de todo o aparato de segurança nacional”.
No sábado, Trump disse que os EUA governarão a Venezuela, e nesta segunda-feira assegurou que já estavam “no comando” do país sul-americano, além de ter advertido Rodríguez que ela poderá ter um futuro pior que o de Maduro se não “fizer o que é certo”.
Oposição pressiona por eleições
Em entrevista à emissora de TV americana Fox News, de um local não revelado, Machado criticou Rodríguez e a chamou de “uma das principais arquitetas da tortura, perseguição, corrupção e narcotráfico”.
Ela acrescentou que planeja retornar à Venezuela “o mais rapidamente possível” depois de ter saído do país secretamente no mês passado para receber o Prêmio Nobel da Paz.
Logo após a captura de Maduro, ela defendeu que Edmundo González Urrutia deveria assumir o mandato presidencial.
A Constituição do país prevê dois caminhos diante da ausência de um presidente. No caso de uma “ausência absoluta”, define a realização de novas eleições dentro de 30 dias, o que foi descartado por Trump nesta segunda.
A Constituição também prevê uma “ausência temporária” do líder. Neste caso, o vice assumiria a presidência por 90 dias, prorrogáveis por mais 90, totalizando seis meses, quando então deveriam ser realizadas eleições.
O próprio presidente da Câmara dos Deputados dos EUA e aliado de Trump, Mike Johnson, disse que acha que uma eleição “deveria acontecer em breve” na Venezuela.
Sem retorno à vista
O cenário de incerteza jurídica, política e econômica tem adiado os planos de retorno de muitas pessoas da diáspora venezuelana. Cerca de 7,9 milhões deixaram a Venezuela nos últimos anos devido à violência, insegurança e ameaças, segundo a agência da ONU para refugiados (Acnur).
Embora muitos sonhem em voltar para sua terra natal, a economia devastada do país e o medo do aparato de segurança do governo tem desencorajado esse movimento.
“Não houve mudança de regime na Venezuela, não há transição”, disse a socióloga e ativista de direitos humanos venezuelan Ligia Bolívar, que mora na Colômbia desde 2019, à AFP. “Nestas circunstâncias, ninguém vai voltar para casa”, concluiu.