Parte da recuperação de Lula nas pesquisas se deveu a uma série de medidas adotadas por ele no período pré-eleitoral, mas o presidente também se beneficiou, desde 2025, de decisões do governo dos Estados Unidos e de crises na campanha de Flávio Bolsonaro nas quais soube surfar. O tarifaço 2.0 de Donald Trump dá a ele mais uma janela de oportunidade.
Desta vez, a agressividade adotada por Marco Rubio em sua postagem nas redes sociais, quando tentou imputar a Lula, sem dados, a responsabilidade pela decisão arbitrária do governo americano, permite ao petista não só repetir o discurso da soberania nacional, mas sair como o moderado na discussão.
Por isso, o tom do governo está sendo calculado — pelo menos até Lula resolver sair do script e falar de improviso, o que é considerado um risco pelo entorno do presidente.
Coube a Geraldo Alckmin, ao Itamaraty e aos ministros a primeira reação ao ataque de Rubio. E o vice-presidente, que já havia sido peça fundamental na construção e execução de estratégia de enfrentamento ao primeiro tarifaço, foi muito feliz nas suas falas: criticou as medidas sem atacar pessoalmente Trump ou Rubio, driblou a tentação de ir ao palanque com Flávio Bolsonaro e fez um aceno que pode ser valioso à chapa do PT para o setor produtivo.
Flávio Bolsonaro fez o oposto. Diante de dados da pesquisa Genial/Quaest e de levantamentos internos da campanha que mostram prejuízos ao pré-candidato do PL com a associação com a Casa Branca de Trump e o tarifaço, resolveu vociferar que a “culpa é do Lula”. E fez isso mais uma vez sem condenar veementemente a adoção de tarifas contra o Brasil, poupando o republicano de críticas.
Todos os dados do recorte específico da Quaest sobre o assunto são desastrosos para Flávio: além de 42% dizerem que as tarifas aumentam sua vontade de votar em Lula e 51% culparem o senador do PL pelas sanções, nada menos que 48% dos entrevistados dizem ter hoje uma opinião desfavorável aos Estados Unidos (em outubro de 2023, 56% manifestavam opinião favorável ao país).
Ou seja: ser amigão de Trump e Rubio, que Flávio insiste em exibir como trunfo, é, na verdade, mais um revés para sua para lá de tumultuada pré-campanha. Ronaldo Caiado e Romeu Zema perceberam isso e saíram da posição em que estavam, de culpar apenas Lula pelas relações conflituosas com os Estados Unidos, e passaram a atribuir parcela da responsabilidade ao bolsonarismo.
Por fim, outro presente dado a Lula de bandeja pelo combo bolsotrumpista é a possibilidade de soltar mais uma série de bondades eleitorais, driblando inclusive o período de defeso da lei eleitoral.
A cúpula do Congresso informou a coluna que uma medida provisória com medidas para compensar os setores atingidos pelo novo tarifaço teria trânsito fácil nas duas Casas, a despeito das recentes rusgas do governo com Davi Alcolumbre, com o argumento de que existe uma situação excepcional, causada pelos Estados Unidos, e que os três Poderes têm de defender a economia brasileira. A manifestação do Supremo Tribunal Federal mostra que o Judiciário tende a ir na mesma direção.
Num momento em que Lula retoma o favoritismo, os ataques a partir de Washington dão a ele a chance de construir pontes com setores do empresariado, posar de moderado quando é visto como radical historicamente, recompor suas relações atribuladas com o Legislativo e fazer aquilo que mais gosta: bondade eleitoral.
O discurso do Ministério da Fazenda é que o governo não cometerá populismo eleitoral tendo o tarifaço como justificativa, mas em outros prédios da Esplanada a comparação entre os ataques dos Estados Unidos — que podem ainda atingir o Pix antes das eleições — e a pandemia já era feita ontem como forma de explicar a excepcionalidade de medidas que podem ser anunciadas.
Nada na forma como 2026 começou permitia prever que Lula fosse ter seu caminho tão facilitado pelos erros da direita e pela interferência externa dos Estados Unidos na eleição. Donald Trump vai se convertendo num poderoso cabo eleitoral para a esquerda.
Vera Magalhães, jornalista
Fonte: https://oglobo.globo.com/


