Ontem foi o Dia Internacional da Mulher, e eu gostaria de trazer alguma coisa com o copo meio cheio. Infelizmente, depois do crime bárbaro que ocorreu com uma menina na Zona Sul do Rio de Janeiro, não tem muito para onde escapar. Esse fato extremamente lamentável é o retrato dos riscos e das características do que ocorre hoje em dia.
Há alguns anos, trouxe uma crônica baseada num fato real: as mulheres, apesar de chegarem aos locais de comando, seguem invisíveis, como se fossem café com leite. E, apesar de contraditório, a justificativa é muito simples: mudamos o envelope, mas não o conteúdo. Essa pauta, especificamente, muito se assemelha à questão racial.
Estamos falando de séculos e séculos de subordinação feminina aos homens. Na linha do tempo, até ontem, mulheres também eram vistas como propriedade e tinham menos direitos reconhecidos pelo Estado. Significa dizer que nossa formação psicológica ainda trabalha numa lógica de que é normal a mulher valer menos. Ainda que não seja algo racional, esse é o motivo pelo qual homens abusam de mulheres em transportes públicos ou um rapaz acha que tem o direito de compartilhar uma adolescente com seus colegas, sem que ela tenha dado o menor sinal de consentimento. A situação é tão naturalizada que ela não tinha certeza de que havia sido, de fato, estuprada.
Desta vez, por sorte, houve denúncia, e os criminosos foram presos. No entanto temos de lembrar que essa não é a realidade do país. Quando falamos sobre a encruzilhada de gênero e raça, é ladeira abaixo. Os relatos de abusos e violências na infância e adolescência são avassaladores, e as cicatrizes ficam para sempre. E quase a totalidade deles nunca constou nem constará nas estatísticas oficiais.
É, pois, essencial reformar as instituições para que possam responder efetivamente a esse tipo de conduta. Afinal, é no escuro e na impunidade que a desumanização e a subjugação crescem.
Assim como na questão racial, em que brancos são necessários para combater o racismo, homens são imprescindíveis na causa das mulheres. Não é questão de esquerda e direita. Não falo sobre que papel cada qual deve desenvolver dentro da família ou da sociedade, mas que é preciso começar pelo mais básico direito de todos: liberdade.
É preciso reconhecer, no dia a dia, todas as esferas de atuação das mulheres, mas não só isso. É importante elevá-las, indicando-as para o desenvolvimento de trabalhos, convidando-as para parcerias estratégicas, proporcionando ferramentas de crescimento individual. Se você não pode fazer nada disso, pergunte, escute, divirja, aconselhe… veja!
Nada disso custa dinheiro ou consome tempo relevante, muito menos depende de qualquer inclinação política. Assim como no racismo, é uma pauta suprapartidária, cujo fortalecimento beneficiará todos. Não precisa ser “feministo” para ser aliado, muito menos ficar alardeando aos quatro cantos do mundo ser contra o machismo, usando as hashtags da moda.
Irapuã Santana, advogado
Fonte: https://oglobo.globo.com/