Rio Branco, AC 18 de agosto de 2026 06:18
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Seca severa eleva preço da carne em até 28% e reduz oferta nos açougues do Acre

Estiagem reduz a disponibilidade de animais para abate, encarece cortes bovinos e faz consumidores de Rio Branco recorrerem a frango, ovos e peixe

A seca severa que atinge o Acre já começa a pesar no bolso dos consumidores e a afetar o abastecimento de carne bovina em Rio Branco. Entre janeiro e agosto deste ano, os preços aumentaram em todos os 14 cortes monitorados pelo Programa de Educação Tutorial (PET) do curso de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Acre (Ufac), enquanto comerciantes relatam dificuldades para receber o produto dos frigoríficos.

Entre os cortes acompanhados nos açougues da capital, o acém registrou a maior alta, com aumento acumulado de 28,3% no período. O fígado aparece em seguida, com valorização de 25,4% até a primeira quinzena de agosto.

O cenário é resultado de uma combinação de fatores, entre eles a redução da oferta de animais para abate durante o período de estiagem, quando as altas temperaturas e a falta de chuva prejudicam as condições das pastagens.

Estiagem reduz oferta de animais para abate

Segundo a Federação de Agricultura e Pecuária do Acre (Faeac), é comum que produtores antecipem a venda de bovinos destinados ao abate antes do chamado verão amazônico, período marcado pela redução das chuvas e pelo aumento das temperaturas.

O presidente da Faeac, Assuero Veronez, explica que o produtor evita manter os animais no pasto durante a estiagem porque eles tendem a perder peso e só recuperariam as condições adequadas para o abate posteriormente.

“Se entrar na época de estiagem, ele vai perder peso e só vai poder abater depois, em novembro e dezembro. Então é natural que nesta época do ano haja menor oferta de animais para abate.”

A redução da oferta acaba pressionando toda a cadeia e chega ao consumidor final por meio do aumento dos preços.

Comerciantes relatam dificuldade para manter açougues abastecidos

Proprietários e funcionários de açougues de Rio Branco afirmam que a dificuldade para adquirir carne se intensificou nas últimas semanas.

A empresária Alana Gonsalves da Silva, proprietária de um estabelecimento no bairro Seis de Agosto, no Segundo Distrito da capital, afirma que o problema não é recente, mas se agravou nas últimas três semanas.

Segundo ela, além da dificuldade de encontrar carne de qualidade, os preços cobrados pelos fornecedores aumentaram significativamente.

O açougueiro Bismarque Maciel relata que passou a pagar cerca de R$ 3 a mais por quilo pelo produto fornecido, aumento que precisou ser repassado ao consumidor.

A preocupação, segundo ele, é que a elevação dos preços reduza ainda mais o movimento no estabelecimento.

Frigoríficos reduzem pedidos e consumidores mudam hábitos

A pressão sobre o mercado não ocorre apenas pelo aumento dos preços. Comerciantes também relatam redução na quantidade de carne recebida dos frigoríficos.

O açougueiro Emerson Ferreira afirma que já chegou a ficar dois dias sem produto para comercializar. Segundo ele, pedidos maiores têm sido parcialmente atendidos.

“A gente pede uma vaca e meia e só mandam uma banda. Estão cortando muitos pedidos. Tem dia que a gente fica sem carne também, porque o frigorífico está sem carne.”

Diante dos preços mais altos, consumidores também começam a mudar os hábitos. O produtor rural Carlos Lopes conta que passou a comprar mais frango e peixe para reduzir o consumo de carne bovina.

A estratégia reflete uma mudança provocada diretamente pela alta dos preços, especialmente entre consumidores que precisam controlar os gastos com alimentação.

Abate de bovinos ainda registra crescimento

Apesar das dificuldades relatadas pelo comércio, o número de bovinos abatidos no Acre apresentou crescimento no primeiro semestre de 2026.

De acordo com boletim técnico mensal da Faeac, divulgado em junho, o estado ultrapassou 338 mil bovinos abatidos nos primeiros seis meses do ano, alta de 5,7% em comparação com o mesmo período de 2025.

O aumento, porém, não impediu que a oferta disponível no mercado fosse pressionada durante o período de estiagem.

Acre e Rio Branco decretam situação de emergência

A crise de abastecimento ocorre em meio ao agravamento da seca no estado.

No início de agosto, o governo do Acre decretou situação de emergência em razão da seca severa e do risco de desabastecimento de água em todo o território estadual. O decreto, assinado pela governadora Mailza Assis, tem validade de 180 dias.

Na semana seguinte, a Prefeitura de Rio Branco também decretou situação de emergência devido à estiagem que atinge a capital. A medida tem validade de 180 dias.

Veja os preços monitorados pelo PET

O levantamento do PET da Ufac mostra a evolução dos principais cortes comercializados em Rio Branco entre janeiro e agosto.

Supermercados

  • Coxão-mole: de R$ 43,38 para R$ 45,19;
  • Pá com osso: de R$ 21,84 para R$ 23,69;
  • Pá sem osso: de R$ 35,78 para R$ 39,13;
  • Agulha: de R$ 22,98 para R$ 27,71;
  • Acém: de R$ 32,55 para R$ 34,99.

Açougues

  • Picanha: de R$ 65,40 para R$ 67,85;
  • Filé: de R$ 66,19 para R$ 67,83;
  • Coxão-mole: de R$ 36,23 para R$ 40,20;
  • Coxão-duro: de R$ 30,50 para R$ 34,64;
  • Fraldinha: de R$ 35,98 para R$ 38,22;
  • Fígado: de R$ 11,15 para R$ 14,60;
  • Pá com osso: de R$ 18,59 para R$ 22,39;
  • Pá sem osso: de R$ 33,36 para R$ 37,54;
  • Alcatra: de R$ 44,35 para R$ 47,23;
  • Patinho: de R$ 34,81 para R$ 38,43;
  • Agulha: de R$ 25,56 para R$ 26,63;
  • Músculo: de R$ 28,19 para R$ 31,25;
  • Contra-filé: de R$ 42,85 para R$ 45,38;
  • Acém: de R$ 29,42 para R$ 32,70.


Os números mostram que a combinação entre estiagem, menor oferta de animais e dificuldades de abastecimento já produz efeitos concretos no mercado de carne bovina da capital acreana, enquanto consumidores buscam alternativas para reduzir o impacto da alta no orçamento familiar.