Rio Branco, AC 20 de outubro de 2026 16:53
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Sangue, suor e lágrimas na reta final

O debate da Band deu o tom da dramaticidade da última semana de campanha que se iniciou com a rodada da BTG/Nexus em que a diferença entre os finalistas se estreitou para 0,6 ponto. Equivaleria a uma vantagem inferior a um milhão de votos do senador Flávio Bolsonaro, não fosse a subestimativa histórica do voto da direita, em média, de 1,4 ponto. Caso se repita, o “voto envergonhado” do eleitor que se omite ou mente para ser melhor aceito no seu meio social, deixaria o presidente Luiz Inácio Lula da Silva numa desvantagem um pouco acima de 2 milhões, a mesma do 1º turno. Tudo isso se a eleição fosse hoje, mas, até domingo, cada dia vai ser um round. A bala de prata de Lula passou a ser a quebra do sigilo dos candidatos e suas famílias.

A tensão começou a subir na véspera do debate, quando a CNN exibiu uma entrevista repleta de acusações da lobista Roberta Luchsinger contra Lula. O presidente confirmou o ditado sobre o risco de se chamar alguém de “pilantra”: se não for, é uma injustiça, se for, é um perigo. A lobista foi a arma com a qual o senador do PL abriu o confronto.

Não bastasse o pugilato sem nocaute no estúdio, a tensão invadiu a sede da emissora com o falso alarme de bomba. Os cães do Gate, informou o comandante do grupo da PM de situações de alto risco, farejaram substâncias químicas, mas não bomba, no carro do senador. O candidato do PL não aguardou o fim da investigação e deixou a Band de carona com o governador Tarcísio de Freitas.

A tensão prosseguiu madrugada adentro com a internação, por arritmia cardíaca, do comandante da ofensiva digital de Lula, o deputado federal André Janones (Rede-MG). A origem foi encontrada no início da manhã desta segunda pelo relatório da ActivaWeb mostrando que o engajamento digital do debate pendeu para Lula.

No monitoramento da Bites, que avançou até a tarde de segunda, as buscas sobre Ana Clara, a criança morta por um PM defendido pela advocacia de Flávio Bolsonaro, cresceram mais que qualquer outro tema. O do Democracia em Xeque confirmou o dado e acrescentou outro. Lula dominou as hashtags, termos antecedidos pelo símbolo do “jogo da velha” que agrupam publicações semelhantes. Aquela sobre a abertura de sigilo de Flavio Bolsonaro foi a que registrou mais visualizações por publicação no Instagram.

A quebra de sigilo bancário foi proposta por Lula quando faltavam apenas 15 minutos para o fim do confronto. Até aquele momento, o candidato à reeleição comeu todas as iscas largadas pelo adversário para tirá-lo do debate propositivo e arrastá-lo para a rinha da troca de acusações. Flávio Bolsonaro foi mais objetivo e falou diretamente ao telespectador, mas o cerco sobre Lula passou arrogância a indecisos que participaram de grupos de pesquisa qualitativa e também reprovaram o comportamento fugidio de perguntas.

O ex-candidato do Missão à Presidência, Renan Santos, ao analisar o debate, reprovou o comportamento “performático” do senador. Do alto de sua experiência no tema, decretou: “Não funciona”. Já Lula, no bate-boca que prestou um desserviço ao telespectador, só conseguiu desautorizar qualquer previsão de que seria um bis do ex-presidente americano, Joe Biden, cuja paralisia num confronto com Donald Trump levaria à sua troca pela vice, Kamala Harris. Pecou por excesso, não pela falta de reação à ofensiva de seu adversário.

Ambos colecionaram tropeços que buscarão corrigir no último confronto, da sexta, na Rede Globo. Antes disso, porém, o clima ameaça pesar com os desdobramentos do inquérito aberto no STF para apurar suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo Willer Tomaz, suas empresas e Flávio Bolsonaro. São amigos e fizeram, pelo menos, um voo juntos no avião de Daniel Vorcaro, do Master.

O UOL revelou um relatório da Polícia Federal em que o senador é citado como usuário de uma conta bancária do advogado. Como o relator deste inquérito é o ministro Alexandre de Moraes, a expectativa em torno da quebra de sigilo desta conta invadiu as apostas em Brasília nesta segunda. É isso que dirá se, na fumaça vista por Lula, havia fogo.

A isso, some-se a tensão gerada pela pressão sobre a Meta, cuja suspensão de perfis nas redes foi denunciada pela Coalizão em Defesa do Jornalismo à Agência Nacional de Proteção de Dados por ferir a liberdade de expressão e de imprensa. Em função desta petição, a ANPD dá cinco dias de prazo para a empresa fornecer explicações sobre seus procedimentos. Ou seja, vai ser uma briga para depois das eleições. Se o PL eleger seu candidato, sua bancada digital pretende retirar poderes da agência e revogar o decreto que regulamentou o Marco Civil da Internet. Ou seja, a Meta deixaria de ser pressionada para estender, ao Brasil, a transparência já exigida em outros países.

O PT vai avançar sobre a Meta até domingo mas o mais provável é que, de imediato, a ofensiva sirva à façanha de perfilar um presidente da República como candidato antissistema.

E a dúvida dos estrategistas eleitorais é se toda essa tensão da reta final vai sair das bolhas dos candidatos para atingir o eleitor indeciso e tirar de casa uma fatia daqueles que, por idosos, ou jovens demais, não são obrigados a votar. São mais de 22 milhões de eleitores, 77% dos quais têm mais de 70 anos de idade. A única bolha a que pertencem é a de sua aposentadoria, dos remédios da Farmácia Popular, e das perspectivas de filhos e netos progredirem na vida. A ver se, no próximo debate, algum dos candidatos o alcançará.