Estou vivendo a política por dentro. Hoje, trabalhando em uma campanha eleitoral, uma pergunta tem se repetido de um jeito que me incomoda profundamente: “Cadê a lista?”, “Cadê os 100?”, “Vai ter dinheiro no dia?”. E isso me fez parar para refletir.
Como geógrafo, aprendi que o território não é apenas rua, bairro, mapa ou limite. O território também é feito de relações de poder, interesses, desigualdades e escolhas. E, quando observo certas práticas eleitorais, percebo que existe um problema que vai muito além de um candidato ou de uma eleição: existe uma cultura política que, em alguns espaços, acostumou parte das pessoas a enxergar o voto como uma oportunidade de conseguir uma vantagem imediata.
É duro dizer isso. É desconfortável. Mas precisamos conversar sobre isso.
Quando alguém passa quatro anos reclamando que falta remédio no posto, que a escola precisa melhorar, que a rua não tem infraestrutura, que falta saneamento e oportunidade, mas chega perto da eleição e pergunta quanto vai receber pelo voto, existe uma contradição que precisa ser enfrentada pela sociedade.
Não quero colocar toda a culpa no eleitor. A história política brasileira também foi marcada por clientelismo, desigualdade e relações em que pessoas em situação de necessidade foram tratadas como eleitorado a ser conquistado por favores. Há políticos e estruturas que alimentam esse comportamento. Mas reconhecer isso não significa retirar a responsabilidade individual de cada cidadão.
O voto não é mercadoria. O voto é poder.
R$ 50 ou R$ 100 podem desaparecer em poucas horas. Uma escolha política, porém, produz consequências durante anos. É justamente aí que mora o perigo da compra do voto: ela transforma cidadania em negociação e necessidade em instrumento de poder.
E há uma coisa que precisamos compreender com clareza: não existe “dinheiro de graça” na política. Recursos públicos têm origem, finalidade e regras. Dinheiro da saúde, da educação, do saneamento, da infraestrutura e das políticas sociais pertence à sociedade. Por isso, quando há desvio de recurso público ou utilização ilegal de dinheiro para obter apoio eleitoral, quem perde não é uma ideia abstrata chamada “governo”. Quem perde é a própria população.
Também é importante não confundir todo recurso de campanha com “dinheiro sujo”. Campanhas podem receber e gastar recursos dentro da legislação, com conta específica, registro e prestação de contas. O problema é a vantagem pessoal oferecida em troca do voto, prática que a legislação eleitoral proíbe.
A Justiça Eleitoral trata como captação ilícita de sufrágio a oferta, promessa ou entrega de bem ou vantagem pessoal ao eleitor com a finalidade de obter seu voto. Nas regras das Eleições 2026, isso pode envolver dinheiro, produtos, serviços, emprego ou outras vantagens. A compra de votos não é uma tradição que devemos aceitar como normal. É uma deformação da liberdade de escolha.
Às vezes sinto revolta — e até nojo dessa lógica, não das pessoas. Porque ela reduz a dignidade de quem vota e destrói a ideia de política que eu acredito: política como serviço, planejamento, responsabilidade e transformação do território.
Como geógrafo e especialista em geoprocessamento, eu olho para uma cidade e não vejo apenas números. Vejo pessoas. Vejo bairros esquecidos, áreas sem infraestrutura, famílias que precisam de políticas públicas permanentes e comunidades que não deveriam precisar esperar uma eleição para serem lembradas.
Talvez a mudança política comece justamente quando pararmos de perguntar “quanto eu vou ganhar hoje?” e começarmos a perguntar: “o que essa escolha vai produzir para o meu bairro, para a minha cidade e para os próximos quatro anos?”.
Um povo consciente não vende sua voz. Fiscaliza. Cobra. Compara propostas. Exige resultado. E quem entra na política precisa ter coragem de dizer que voto não se compra e consciência não se aluga.
Eu continuo acreditando que a política pode ser diferente. Mas essa mudança não depende apenas de quem é candidato. Depende também de nós, enquanto sociedade. Porque democracia não acontece somente dentro da urna. Ela começa na consciência de quem chega até ela.
John Fagner, Geógrafo e Especialista em Geoprocessamento


