Materiais apreendidos devem ser devolvidos ao estado. Investigação começou no final de 2025 e apontou descaminho de cerca de R$ 10 milhões em remédios da rede pública. Apuração tenta descobrir se há envolvimento de servidores públicos
Mais de três meses após a prisão de um idoso que possuía farmácia clandestina em casa, a Polícia Civil segue fazendo análise nos aparelhos telefônicos de possíveis envolvidos no que pode ter sido um esquema de desvio de remédios e insumos dos hospitais do Acre.
Conforme as investigações, a suspeita é de que medicamentos para tratamento contra câncer e hemodiálise, além de gazes, luvas e outros materiais hospitalares, tenham sido retirados ilegalmente da Fundação Hospitalar Governador Flaviano Melo (Fundhacre), Pronto-Socorro e de Unidades de Pronto Atendimento (UPA) de Rio Branco desde 2023. A polícia tenta apurar se houve envolvimento de servidores públicos.
O delegado responsável pelo inquérito, Igor Brito, disse que até esta segunda-feira (13) ainda não houve novas prisões. Segundo o investigador, o idoso foi solto no dia seguinte à prisão durante audiência de custódia e aguarda o andamento das investigações usando tornozeleira eletrônica.
“Já foram ouvidas e interrogadas muitas pessoas, algumas inclusive são suspeitas de receptação. Contudo, não chegaram a ser presas e respondem em liberdade. Durante a primeira fase, também averiguamos o monitoramento eletrônico do hospital”, resumiu.
Ainda segundo o delegado, novas oitivas devem ser feitas com os envolvidos no caso. Os desvios são estimados em cerca de 10 milhões de acordo com Brito. “Identificamos outras pessoas, mas essas situações ocorrem em segredo de justiça para não atrapalhar o trabalho já feito”, destacou.

Medicação devolvida
O delegado também explicou que parte os medicamentos desviados que foram apreendidos durante as investigações está com a Polícia Civil e outra parte é mantida em um cofre na Secretaria Estadual de Saúde (Sesacre).
“Representei pela restituição dos medicamentos e vamos fazer a entrega desses remédios para o estado. Nesse período, cada exemplar ficou aos cuidados da Polícia Civil. Era tanta coisa que a gente quase ficou sem espaço”, afirmou o delegado.
Depósito encontrado
No dia 14 de janeiro, a Polícia Civil descobriu um depósito clandestino usado para armazenar os materiais possivelmente desviados. A ação ocorreu na Rua Eduardo Asmar, região da Gameleira, Segundo Distrito de Rio Branco.
As equipes policiais cumpriram mandados judiciais no depósito e também em uma clínica da Baixada da Sobral, que pertence ao empresário e ex-deputado estadual, Raimundo Correia da Costa, mais conhecido como Raimundinho da Saúde.
O primeiro alvo dos policiais foi o depósito na Gameleira. O estabelecimento estava fechado e não tinha ninguém dentro. Os medicamentos e materiais hospitalares estavam armazenados em caixas de papelão e sacos de lixo.
Havia várias caixas violadas, embalagens de insumos abertos e materiais espalhados no estabelecimento. À época, um caminhão foi usado para retirar as caixas do local e levar para um depósito da Polícia Civil para contabilização.
Início da apuração
Ao g1, a Sesacre informou à época que a operação ocorreu a pedido da pasta após ‘identificação de indícios de furto de medicações e insumos em unidades de saúde’. No dia 7 de janeiro, um servidor público foi levado à delegacia para prestar depoimento durante cumprimento de mandados de busca e apreensão da Polícia Civil. Ele teve o celular apreendido.
A polícia não divulgou detalhes sobre a revista na casa do servidor público, contudo, confirmou que foram encontradas provas no telefone sobre o desvio de remédios. Ainda durante entrevista coletiva, no dia 5 de janeiro, o secretário Pedro Pascoal disse que os desvios tiveram impactos no atendimento ao público.
“O Estado se planejava para fazer aquela aquisição, aquela quantidade específica de medicamento e nunca era suficiente para as patologias, doenças, diagnósticos e, enfim, no consumo dos nossos pacientes, das nossas unidades de saúde. E isso deu um start [na investigação]”, afirmou.


