Rio Branco, AC 18 de junho de 2026 12:23
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Permanência de Ciro Nogueira no Senado ficou insustentável

São estarrecedoras as novas revelações da Polícia Federal (PF) sobre a relação de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master e artífice de fraudes multibilionárias, com o senador Ciro Nogueira (PI), presidente do Progressistas (PP). É inaceitável a promiscuidade de líderes graduados do Congresso com um corruptor contumaz. À medida que o inquérito sobre corrupção e lavagem de dinheiro se aprofunda, acumulam-se evidências contra Nogueira. Torna-se a cada dia mais insustentável sua permanência no Senado. O que se sabe até o momento já é suficiente para abertura de processo de cassação por quebra de decoro, independentemente de decisão da Procuradoria-Geral da República sobre denunciá-lo.

Mensagens revelam que Vorcaro pagou hospedagem a Nogueira e ao presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), no hotel cinco estrelas Four Seasons de Lisboa. Relatório de inteligência do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) corrobora, segundo a PF, “achados referentes às vantagens indevidas recebidas pelo senador”. Em maio, a PF já revelara mensagens segundo as quais Vorcaro pagava a Nogueira mesada de R$ 300 mil, depois reajustada para R$ 500 mil. De acordo com a investigação recente, o senador montou uma rede para ocultar os valores ilícitos.

Quanto a Motta, as evidências são menos eloquentes, mas não menos constrangedoras. Ele tratou a ida a Lisboa com naturalidade e declarou não ver problema nas diárias pagas. De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, há no celular de Vorcaro pedido de Motta por liberação de empréstimo à empresa de uma cunhada — ele afirmou que a operação “está dentro da legalidade”. Suas explicações são insuficientes. O presidente da Câmara não pode receber nenhuma vantagem de alguém com interesses em projetos na Casa, muito menos de uma figura como Vorcaro. Motta deveria prestar esclarecimentos sobre suas interações com o banqueiro e seus intermediários, além de tornar públicas todas as hospedagens e caronas em jatinhos recebidas no exercício do mandato.

Sobre a relação entre Nogueira e Vorcaro, restam poucas dúvidas. Antes de ser liquidado pelo Banco Central (BC), o Master oferecia papéis com retorno muito acima do praticado no mercado, usando como chamariz a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) a aplicações até R$ 250 mil. Em junho de 2024, Nogueira viajou para Lisboa por conta de Vorcaro. Dois meses depois, quando os apuros do banco eram conhecidos, apresentou proposta redigida pelo próprio Master aumentando a garantia do FGC para R$ 1 milhão.

Em janeiro de 2025, viajou para Courchevel, nos Alpes Franceses, onde foi fotografado aos abraços com Vorcaro. Em setembro daquele ano, em meio ao cerco do BC às fraudes e diante do veto à venda do Master ao Banco de Brasília, aliados de Nogueira na Câmara assinaram requerimento de urgência para projeto estipulando exoneração de diretores do BC pelo Congresso.

Enquanto defendia os interesses do Master no Congresso, Nogueira se deixou fotografar com Vorcaro, pegou carona em seus jatinhos e desfrutou o luxo propiciado por ele em Nova York, Lisboa, Paris e nos Alpes. Tamanha desfaçatez mostra como confiava na impunidade. Se os parlamentares permanecerem inertes ante tantas evidências, serão cúmplices de qualquer crime por que venha a ser condenado.

Editorial do jornal O Globo de 18.06.2026
Fonte: https://oglobo.globo.com/