Rio Branco, AC 5 de novembro de 2026 11:03
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Paraguai: crise em banco gera pedido de impeachment de presidente

A oposição tenta afastar o chefe de Estado após o bloqueio bancário deixar milhões de clientes sem acesso aos valores em Assunção

A crise envolvendo o banco digital Ueno, no Paraguai, ganhou novos acontecimentos nesta quinta-feira (5). Além de deixar milhões de clientes sem acesso ao próprio dinheiro, o caso trouxe protestos nas ruas e levou parlamentares da oposição a apresentar um pedido de impeachment contra o presidente Santiago Peña.

Manifestantes passaram a madrugada em frente ao Congresso, em Assunção, capital do Paraguai, para cobrar a liberação do dinheiro bloqueado e a responsabilização dos envolvidos na crise do banco.

O protesto teve momentos de tensão, e a polícia utilizou jatos de água para dispersar os manifestantes. A situação aumentou a insatisfação da população e a preocupação dos paraguaios com a segurança do sistema financeiro do país.

O Ueno Bank teve suas atividades interrompidas nesta terça-feira (3), após uma intervenção do Banco Central do Paraguai. Essa decisão foi tomada depois que a autoridade monetária identificou problemas nos índices de solvência da instituição, relacionados a empréstimos concedidos a empresas ligadas ao próprio grupo financeiro.

Com em torno de 3 milhões de cliente s, o banco administrava aproximadamente US$ 850 milhões (R$ 4.643.295.000,00) em depósitos públicos. O número de pessoas afetadas representa quase metade da população paraguaia.

Envolvimento do presidente e pedido de impeachment

A situação ganhou ainda mais repercussão após vir a público uma ligação de Santiago Peña com o grupo responsável pelo banco. O presidente, que assumiu o Governo no ano de 2023, foi acionista do Grupo Vázquez, proprietário do Ueno, até março de 2025.

Com base nessa relação, 35 deputados da oposição apresentaram um documento acusando Peña de ter responsabilidade na crise do País. Dentre as suspeitas levantadas estão : conflito de interesses, irregularidades na fiscalização do banco, possível uso indevido de recursos da previdência social e omissão que vem da parte do Banco Central.

Os parlamentares também solicitaram a realização de uma sessão extraordinária para discutir o pedido de impeachment do presidente. Para que o processo tenha início, é necessário o apoio de dois terços dos deputados. Até o momento, não se tem confirmação de que os parlamentares da base Governista irão apoiar a proposta.

Durante uma sessão na Câmara, a deputada de oposição Rocío Vallejo criticou a atuação de Peña e afirmou que milhões da população paraguaia foram prejudicados pela crise.

Em resposta à essas acusações, Santiago Peña declarou, por meio de uma publicação na rede social X (antigo Twitter), que todos os responsáveis pelas irregularidades serão levados à Justiça, sem exceções. O presidente também pediu que os setores políticos priorizem os interesses dos clientes afetados.

Crise provoca mudanças no Banco Central e prisões

Além da pressão política, o caso provocou mudanças importantes na estrutura do Banco Central do Paraguai (BCP).

O presidente da instituição, Carlos Carvallo, renunciou ao cargo na terça-feira (3), a pedido de Peña. A atuação de Carvallo na fiscalização do Ueno começou a ser questionada por parlamentares, principalmente porque ele já tinha dirigido a instituição financeira que deu origem ao banco.

Após a saída de Carvallo, Liana Caballero ass umiu interinamente a presidência do Banco Central. Já na quarta-feira (4), Peña indicou o economista Raúl Vera Bogado para comandar a instituição. A nomeação ainda depende da aprovação do Congresso. Vera já havia ocupado o mesmo cargo entre os anos de 2001 e 2002.

As investigações também avançaram sobre os responsáveis pelo Ueno. O Ministério Público determinou a prisão de oito dirigentes e ex-dirigentes ligados ao banco, entre eles executivos e empresários relacionados à administração da instituição. Os investigados se apresentaram às autoridades, e a Justiça determinou o bloqueio de seus bens.

Ao todo, 27 pessoas ligadas ao banco foram formalmente acusadas no caso. As investigações buscam esclarecer as irregularidades financeiras e identificar quem teve participação no problema.

Governo busca acelerar devolução do dinheiro

Enquanto as investigações continuam, uma das principais preocupações é garantir que os clientes consigam recuperar os valores que ficaram bloqueados após a intervenção no banco.

O Governo paraguaio trabalha com o Congresso na aprovação de uma lei emergencial para acelerar a devolução dos depósitos. Peña já promulgou uma medida que busca permitir que os poupadores tenham acesso ao dinheiro em menos tempo.

A crise também provocou movimentações em outras instituições financeiras. Na quarta-feira (4), foram registrados relatos de falhas em diferentes aplicativos bancários, aumentando a insegurança entre os clientes.

Diante dessa situação, a Associação de Bancos do Paraguai ( Asoban) informou que as instituições financeiras estão trabalhando para atender ao aumento na procura de pessoas que desejam transferir suas contas do Ueno para outros bancos. A entidade também afirmou que o sistema bancário do país continua funcionando normalmente.