Os dissabores da pré-campanha de Flávio Bolsonaro deram a Lula uma condição rara tratando-se do incumbente numa eleição presidencial: jogar no contra-ataque, no erro do adversário. O intervalo proporcionado pela Copa e a sucessão de crises no Q.G. bolsonarista têm sido usados para tentar reverter uma das rejeições mais consolidadas ao petista, a do mercado financeiro.
Os emissários de Lula nessas conversas, entre os quais um dos mais loquazes é o novo ministro da Fazenda, Dario Durigan (foto) —que, diga-se, joga com aquela disposição de quem veio do banco e quer garantir lugar no time titular—, procuram desmontar com dados as comparações entre as medidas do atual governo e as de Jair Bolsonaro no período eleitoral.
Existe um incômodo com o que auxiliares e estrategistas de campanha de Lula enxergam como “forçação de barra” para mostrar equivalência entre o pacote anunciado por Lula desde o fim de 2025 e o sprint de Bolsonaro a partir da PEC Kamikaze, no começo do segundo semestre de 2022.
Nas conversas, esses interlocutores de Lula dizem a gestores, banqueiros e analistas de bancos que o presidente não aumentou nem aumentará o Bolsa Família, como Bolsonaro fez com o Auxílio Emergencial e como as redes bolsonaristas ficam ventilando.
Ao cotejar as medidas de um e outro presidente para conter a alta dos combustíveis, os aliados de Lula dizem que, agora, todas foram negociadas com os governadores e feitas com prazo, diferentemente de Bolsonaro e Paulo Guedes, que tomaram a decisão compulsória de suspender o ICMS dos combustíveis, além disso, deixada para o governo seguinte desarmar. Por fim, entram na prancheta das comparações os precatórios. Lula não fez nenhuma “pedalada” com o pagamento dessas decisões judiciais para pagamento de dívidas.
Com essa preleção, ministros de Lula também têm procurado os presidentes da Câmara, do Senado e do STF para tentar evitar que prossiga a pauta-bomba. Nessas conversas, são colocados em perspectiva os custos de medidas dos programas eleitoreiros de Lula, como o Desenrola 2, e as bondades que o Congresso ameaça fazer a produtores rurais e diversas carreiras do funcionalismo, por meio da votação de regimes especiais de aposentadoria.
O governo deixou avisado que judicializará, para evitar que a agenda de Davi Alcolumbre prossiga, e busca de novo o aval do STF ao reunir jurisprudência, na forma de súmulas recentes da Corte que mostram a inconstitucionalidade das medidas pretendidas.
A tentativa de se mostrar fiscalmente responsável já é uma vacina de Lula para a principal cobrança do mercado. A roupagem da austeridade não se sustenta, no entanto, quando se analisam as exceções ao arcabouço fiscal ao longo dos anos e a escalada dos gastos obrigatórios, herança mais explosiva que o atual presidente deixará para si mesmo ou para quem vencê-lo nas urnas.
Ainda assim, o discurso será que as medidas de 2025-2026 atingiram públicos específicos, enfrentaram contingências como tarifaço e guerras e são coerentes com a plataforma eleitoral de enfrentar distorções tributárias e governar para os mais pobres. Isso tudo com impacto menor que as medidas de Bolsonaro.
Lula sabe que não será o suficiente para torná-lo palatável ao mundo financeiro e que terá de prometer enfrentar o crescimento do gasto obrigatório caso seja reeleito. Isso vem sendo trabalhado na elaboração do plano de governo de um eventual Lula 4.0, mas não se deve esperar que se comprometa com o fim da política de valorização real do salário mínimo, desvinculações constitucionais ou uma nova reforma da Previdência — justamente a pauta que o mercado arredio a ele quer ver.
Esses pombos-correio sobrevoam a Faria Lima apresentando Lula como alguém que já se mostrou confiável, lembrando o legado fiscal de Bolsonaro e plantando temor na instabilidade e no despreparo demonstrados por Flávio nessa fase de crise. Se vai colar, o fim da Copa e o início para valer da campanha mostrarão.
Vera Magalhães, jornalista
Fonte: https://oglobo.globo.com/


