Rio Branco, AC 5 de março de 2026 17:31
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Mafiosos em ação

Entramos no campo da atividade mafiosa a partir dos diálogos e confirmações de que Daniel Vorcaro não era apenas um audacioso investidor financeiro que levou seu Banco Master a um esquema de pirâmide que lesou milhares de investidores e fundos públicos. Vorcaro era mais que um trambiqueiro de colarinho branco; era um bandido que montou uma quadrilha de delinquentes para ameaçar e desestruturar qualquer um que viesse a denunciar suas atividades criminosas. Podia ser uma empregada doméstica que ouviu mais do que devia ou o cozinheiro que ele imaginava ter gravado uma conversa indevida. Uma clara ação mafiosa, cujo braço armado tinha o sugestivo codinome de “Sicário”.

O avanço das investigações demonstra também que o ministro Dias Toffoli tinha todo o interesse em controlar as investigações e atrasar o trabalho da Polícia Federal (PF). Existem cerca de cem celulares de Vorcaro e seus interlocutores que ainda nem foram investigados pela PF porque ela temia que qualquer avanço pudesse ser anulado por decisão de Toffoli — como sabemos agora, ele havia criado um clima de suspeição sobre a PF justamente para constranger suas ações.

Outro detalhe interessante: ao descobrir que Vorcaro tinha um grupo de WhatsApp chamado “A Turma”, em que dava ordens para crimes, ele poderia ser enquadrado na CPI do Crime Organizado, porque estava organizado para cometer qualquer tipo de crime — financeiro, agressão, ataques etc. Certamente o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) tentará essa brecha para insistir na quebra de sigilo bancário da Maridt, sociedade dos irmãos Toffoli, que vendeu o resort Tayayá a um fundo ligado a Vorcaro por cerca de R$ 35 milhões.

Dificilmente, porém, essa providência seria bem-sucedida, pois há uma tendência no Supremo Tribunal Federal (STF) de evitar que as CPIs ampliem demais seu escopo. Todas as CPIs, segundo alegam, investigam crime organizado, como a do INSS, que tem uma investigação isolada. A CPI do Banco Master não será aberta porque há interesse suprapartidário para que ela não exista, já que são vários, de várias legendas partidárias, os envolvidos de uma maneira ou de outra com Vorcaro e seus tentáculos financeiros.

O episódio do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), denunciado pela colunista do GLOBO Malu Gaspar, é exemplar desse envolvimento, mesmo que seja indireto. Cada vez que se abre a investigação, que há informações novas, as coisas vão ficando mais claras, e é isso que Toffoli tentou evitar o tempo todo. O ministro André Mendonça, que assumiu como relator em seu lugar, está disposto a enfrentar todos e ir adiante — até criticou o procurador-geral da República, que não viu premência para analisar o caso, embora estivesse claro nos autos que havia risco de vida envolvido, como no caso do jornalista Lauro Jardim, do GLOBO, contra quem era armado um falso assalto para “quebrar todos os seus dentes”.

Mendonça não quer e não fará estardalhaço com o resultado das investigações, mas está com o firme propósito de ir até o fim para esclarecer o caso. Ele tem as informações, por isso nem sabe onde tudo vai dar — sabe que não é só o que foi divulgado. Prevejo uma ação mais forte dele na sequência de investigações. A polícia já sabe, Mendonça sabe e Toffoli sabe, por isso tentou esconder. Ao fechar o cerco nas investigações, a PF abre a possibilidade de que Vorcaro venha a fazer delação premiada. À medida que os campos institucionais em que enterrou suas garras acabam — aliados ou funcionários federais em órgãos fundamentais como Banco Central ou Tribunal de Contas da União, deputados e senadores comprados pelo dinheiro criminoso, agora identificados —, ele vai perdendo a esperança de sair impune e pode querer levar mais gente junto.

Merval Pereira, jornalista e escritor
Fonte: https://oglobo.globo.com/