Os políticos brasileiros, desde a Proclamação da República, no geral, têm sido representantes de si mesmos no poder. Têm se empenhado em criar e demolir partidos para gestar variantes de um partido nacional macunaímico, com a diabólica estrutura de que é de todos e de nenhum ao mesmo tempo. De esquerda ou de direita ou de extremo centro, basta olhar a cena com a lupa do pensamento crítico e veremos que Macunaíma está lá e, portanto, nós não estamos lá.
Macunaíma é o herói sem nenhum caráter. É todos e não é nenhum. Tenta, mas não consegue ser. Nasceu em Araraquara (SP), na Chácara Sapucaia, em que Mário de Andrade passava um mês de férias, entre o fim de 1926 e o começo de 1927.
Na chácara de seu tio, Pio Lourenço Corrêa, cuja avó, em Araritaguaba, ainda falara nheengatu, a “língua bonita” dos mamelucos, mestiços de branco e índia, brasileiros da servidão, que se tornarão o caipira e tudo o que o caipira representará na história do Brasil.
E que será não só a língua de quem obedece, mas a de quem manda para fazer-se obedecer. Mas língua de quem fala afirmando para negar. Expressão da consciência reprimida pela servidão dos nativos, como fala inacabada de quem diz pela metade o que quer dizer, mas não pode porque o falar na sociedade do medo é o mesmo que desobediência, revolta e insurgência.
Quem fala sob servidão e repressão diz apenas o fragmento do que deve ser dito por todos para que a sociedade exista como pacto de iguais. Sendo fragmento, já é negação da condição humana de quem fala não falando.
O não falar, o só gaguejar e imitar, em país como o nosso, é gravíssima indicação de não ser, não ter, não poder. É com base nessa privação que existe o poder dos poderosos. A sociabilidade carneiril do faz de conta e da imitação. Faz de conta que temos leis, que temos direito, que temos justiça, que somos gente. Gente não é quem manda nos outros. É quem se reconhece como gente no outro.
Essa língua nasceu literariamente em “Selvas e choças”, título do livro inaugural do regionalismo literário paulista, de Otoniel Mota, que foi pastor presbiteriano e missionário no sertão, aí por 1912, e, mais tarde, catedrático de linguística na Faculdade de Filosofia da USP. Foi publicado pela Imprensa Metodista, em 1922.
Ele foi membro da Academia Paulista de Letras, como Amadeu Amaral, que o foi da Paulista e da Brasileira, autor do imprescindível “O dialeto caipira” da mesma quadra em que Mário de Andrade está cogitando sobre o nenhum caráter do que somos.
Já estivemos mais perto de ser alguém no intervalo democrático entre o fim do Estado Novo e o golpe militar da madrugada de 1º de abril de 1964. O período mais denso do chamado nacional-desenvolvimentismo. O da economia voltada para dentro, para a formação do mercado interno como fator do desenvolvimento industrial. E, claro, de criação de renda e emprego para criar mais renda e mais emprego.
O nacional-desenvolvimentismo era de inspiração keynesiana, de John Maynard Keynes, professor de economia em Cambridge, no Reino Unido. No ápice agônico dessa tendência histórica aqui, o perfil do nosso governo, que era o de João Goulart, era o que vagamente se poderia definir como de esquerda. Trabalhista e um tanto social-democrático.
Mas o sistema político brasileiro continha um regime político paralelo, arcaico e retrógrado, essencialmente anticapitalista. Num Brasil em que havia segmentos políticos inspirados no comunismo sem ter realizado antes o capitalismo. Um regime que sobreviveu como parasita do Estado mediante trocas de favores das oligarquias políticas com o poder. A economia da mamata. Um regime antagônico ao do nacional-desenvolvimentismo, essencialmente latifundista e do latifúndio dependente. Um antagonismo estrutural e comprometedor para o desenvolvimento do capitalismo no Brasil.
É que o Brasil, embora não tenha patenteado a invenção, “inventou” o capitalismo anticapitalista, que é o que temos, o do lucro privado baseado no prejuízo coletivo, contra o país. O capitalismo do herói sem nenhum caráter.
É capitalismo, ainda que fundado em técnicas econômicas e sociais de acumulação originária de capital e de sua reprodução ampliada decorrente da manutenção das mesmas técnicas retrógradas. Acabamos com a escravidão indígena do índio capturado como caça para viabilizar e escravidão negra do africano comprado legalmente no mercado de gente na África.
Acabamos com a escravidão negra para viabilizar a escravidão branca, escravidão por dívida em que o trabalhador trabalha para escravizar-se, como viu e observou Euclides da Cunha na região amazônica, quando lá estava, a serviço do Itamaraty, trabalhando na demarcação de nossa fronteira.
José de Souza Martins, escritor e sociólogo brasileiro
Fonte: https://valor.globo.com/


