O ataque dos Estados Unidos à Venezuela não se explica só pelo petróleo. A cotação do produto caiu fortemente nos últimos anos e os Estados Unidos tornaram-se autossuficientes. Não há falta de suprimento. O produto está sobrando no mundo. Donald Trump quis mostrar, e mostrou, seu poder ao mesmo tempo à China, maior cliente do petróleo venezuelano, à Rússia, grande fornecedora de armas para a Venezuela, ao Irã, fornecedor de armas e drones, e a Cuba, que fazia a segurança de Nicolás Maduro. Dos mortos na operação de sequestro e prisão do presidente venezuelano, 32 eram agentes cubanos.
– A minha hipótese é que o petróleo foi só o vetor de um processo, porque Trump pegou Rússia, China, Irã e Cuba, sem mexer ainda com o petróleo. Ele cortou o cordão que liga os vasos comunicantes e deu recado a todos eles. Noventa por cento do que a Venezuela exporta é petróleo, e 70% vai para a China —diz o especialista em petróleo, David Zylbersztajn.
Ao longo dos últimos anos o petróleo teve queda de preço e, ao mesmo tempo, a Venezuela passou a produzir cada vez menos. A produção caiu de três milhões de barris por dia para um milhão. Só no último ano a cotação caiu 20%. Segundo Zylbersztajn, se fosse manter o preço real de 2010 a 2014, o petróleo estaria hoje em US$ 140, e está a menos da metade disso.
Nunca foi pela democracia, tanto que o presidente Trump, na fala de domingo, não chegou a pronunciar a palavra. Na Venezuela, o chavismo permanece no poder, agora com a vice-presidente Delcy Rodriguez, que ontem assumiu a presidência, sob aplausos do filho de Maduro. Trump disse várias vezes que está interessado no petróleo, mas servirá mais como reserva estratégica.
– Os EUA não precisam agora, mas imaginar que a três, quatro horas de voo de Miami estão as maiores reservas do mundo comprovadas. Isso é uma garantia em termos de segurança energética. É como se fosse um grande reservatório americano — diz David.
No Brasil tudo está sendo visto como extremamente perigoso, e isso é que a diplomacia quis expressar no forte discurso do embaixador brasileiro na ONU, Sérgio Danese. Falando em espanhol, idioma escolhido pelo tema tratado, Danese usou um tom duro. “O Brasil rejeita de maneira categórica e com a maior firmeza a intervenção armada em território venezuelano em flagrante violação da Carta das Nações Unidas e do direito internacional.” O embaixador disse que é uma quebra de precedente extremamente perigosa para toda a comunidade internacional. “O Brasil não acredita que a solução da situação da Venezuela passe pela criação de protetorados no país”.
O que fontes do governo me explicaram é que a ONU é o local para se usar este tom e falar objetivamente sobre os fatos e os riscos. E que estando no Conselho de Segurança era importante lembrar a necessidade de o conselho funcionar. Porque pela sua fraqueza é que existem hoje, como Danese lembrou, 61 conflitos armados e 117 milhões de pessoas em situação de catástrofe humanitária.
– O Brasil é um país que vive do soft power, se a gente aceitar que vale a força bruta estamos perdidos — diz uma fonte do governo brasileiro.
A Venezuela vive longa tragédia política e econômica. O professor Paulo Vicente da Fundação Dom Cabral disse à coluna que a Venezuela tinha o maior PIB per capita da América do Sul em 1980 e, em 2023, tinha o menor. Ele acrescenta que apesar da queda de produção, o petróleo ainda é um terço do PIB venezuelano.
O professor Carlos Frederico Coelho, da PUC-Rio e da Escola de Comando do Exército, diz que todos os indicadores econômicos da Venezuela são muito negativos:
– Houve uma queda do PIB de 70% nos últimos dez anos. A inflação continua fora de controle, em torno de 170% ao ano e provavelmente chegando a 300%. Mais da metade dos cerca de 28 milhões de venezuelanos vivem abaixo da linha da pobreza, e sem acesso regular aos serviços essenciais.
Além do sofrimento econômico, o chavismo se transformou numa tirania política, com milhares de presos políticos. Oito milhões de pessoas que deixaram o país. Nada disso está perto do fim, nem justifica o ato de Trump. Pelo contrário. A agressão americana desrespeitou o direito internacional e as leis americanas com o propósito de dar uma demonstração de força. O petróleo venezuelano passa a ser reserva estratégica dos Estados Unidos. E o que Trump quer é instalar na região um protetorado americano.
Míriam Leitão, jornalista e escritora
Fonte: https://oglobo.globo.com/