Rio Branco, AC 24 de fevereiro de 2026 17:52
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Gases na atmosfera, poluição da água: veja riscos das mais de 100 toneladas de lixo recolhidas no Carnaval em Rio Branco

Especialista detalhou impactos que as 120 toneladas de lixo em Rio Branco pode gerar ao meio ambiente caso não haja a destinação correta. Estimativa é de 72 e 120 toneladas de CO₂ emitidos na atmosfera

Com o fim das festividades carnavalescas, uma preocupação surge em torno da destinação e dos efeitos que o lixo produzido neste período pode causar para o meio ambiente.

Em Rio Branco, cerca de 120 toneladas de lixo foram recolhidos nas cinco noites de folia. Já em Cruzeiro do Sul, segunda maior cidade do Acre, a quantidade passou das 60 toneladas.

Para entender quais os impactos que o lixo produzido neste período pode causar ao meio ambiente, o g1 conversou com o professor da Universidade Federal do Acre (Ufac) e coordenador do projeto Recicla Ufac, Edson Guilherme, que explicou as consequências para a rede hídrica, além dos riscos à camada atmosférica com os gases poluentes.

Efeitos do lixo no meio ambiente

Segundo Edson, o problema do lixo carnavalesco está na sua composição e na quantidade que é gerada. O professor detalhou que, entre as consequências causadas está a contaminação da rede hídrica do estado, caso não seja dado o destino adequado.

“Se chover, o que é comum nesta época no Acre, esse material, composto por copos descartáveis, garrafas PET e adereços plásticos (como o glitter), é levado diretamente para as galerias de águas pluviais, desaguando nos nossos rios, como o Rio Acre e o Rio Juruá”, afirmou.
Conforme o especialista, com o passar do tempo, o plástico presente nesses materiais se fragmenta em microplásticos que entram na cadeia alimentar dos peixes e comprometem a qualidade da água. Além disso, o lixo acumulado pode obstruir bueiros e canais de água.

“Em cidades com solo amazônico e regime de chuvas intensas, isso acelera processos de alagamentos urbanos, afetando não só a fauna urbana, mas causando erosão e contaminação do solo”, detalhou.

Estimativa de poluentes

O professor comentou ainda sobre a estimativa de emissão de gases de efeito estufa (GEE) a partir de 120 toneladas de lixo gerado no Carnaval em Rio Branco. Segundo ele, o número depende de fatores como a composição dos resíduos, a destinação (aterro, incineração, compostagem), a eficiência de captura de biogás e o tempo de decomposição.

A estimativa fica em torno entre 72 e 120 toneladas de CO₂ (dióxido de carbono) equivalente ao longo do tempo de decomposição, caso o lixo seja destinado ao aterro sanitário.

“Se parte dos resíduos for reciclada ou compostada, as emissões caem bastante […] o número é uma estimativa simplificada, já que cálculos oficiais exigem inventários detalhados como os que algumas cidades já começaram a fazer”, justificou.

Além disto, ele destacou que mesmo ao ir para o aterro sanitário, o lixo continua emitindo gases poluentes à atmosfera, contribuindo para o aquecimento global em uma escala microclimática.

“Os resíduos orgânicos depositados em aterros passam por processos de decomposição anaeróbica (sem oxigênio), que geram principalmente metano (CH₄) e dióxido de carbono (CO₂), dois dos principais gases de efeito estufa”, falou.

Limpeza na Praça Orleir Cameli, em Cruzeiro do Sul, iniciava logo após o fim da festa — Foto: Arquivo/ Prefeitura de Cruzeiro do Sul

Função do aterro sanitário

Conforme o especialista, o aterro sanitário tem como função isolar o lixo do meio ambiente, tratando os subprodutos perigosos da decomposição.

Por isso, há problema quando este material não é recolhido.

“Apesar de ser a solução mais segura hoje, o aterro sanitário deve ser o último recurso. O papel dele deveria ser receber apenas o que não pode ser reciclado nem compostado (os rejeitos). Quando as 120 toneladas de lixo do Carnaval de Rio Branco vão direto para o aterro sem separação, por exemplo, estamos ‘jogando dinheiro fora’ e ocupando um espaço precioso do aterro com materiais que poderiam ter voltado para a indústria, reduzindo a vida útil dessas instalações que custam caro aos cofres públicos”, concluiu.

Para onde foi o lixo recolhido

Ao g1, a Secretaria Municipal de Cuidados com a Cidade (SMCCI) disse que os resíduos são encaminhados à Unidade de Tratamento de Resíduos Sólidos (Utre), e não ao aterro sanitário.

“Esse lixo é destinado a Utre, a parte central, de recebimento geral, e de lá as cooperativas fazem a questão da separação dos lixos porque a maioria são recicláveis”, resumiu.