Rio Branco, AC 9 de maio de 2026 06:48
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Espiral negativa

Os revezes judiciais do ex-governador Gladson Cameli (PP) ainda não acabaram. Ao mesmo tempo que no último dia 05 a Corte do STJ formou maioria para condená-lo por organização criminosa, corrupção passiva, peculato, lavagem de dinheiro e fraude em licitações na Ação Penal 1076, os ministros também decidiram, por unanimidade, receber a denúncia no Inquérito 1674, conhecido nos bastidores como “Caso Colorado”, ampliando o cerco judicial em torno do núcleo familiar e empresarial do ex-governante apontados como infratores da lei pela investigação da Polícia Federal.

Nascedouro

O novo processo gira em torno do contrato nº 067/2021, firmado pelo Deracre (Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e Aeroportuária do Acre) para a duplicação da rodovia AC-405, em Cruzeiro do Sul, obra avaliada em mais de R$ 36 milhões e vencida por consórcio liderado pela Construtora Colorado.

Laços de família

A Colorado é uma empresa atribuída ao grupo familiar de Gladson. Segundo o Ministério Público Federal, a firma estava formalmente em nome de Linker Barroso Cameli, primo do ex-governador, mas seria controlada por Eládio Messias Cameli, o genitor do ex-governador.

Formalidades

Antes do início do julgamento do caso ‘Murano’, o presidente da Corte consultou as partes sobre a dispensa da leitura do relatório envolvendo o ‘Caso Colorado’. A subprocuradora geral da República, Luiza Cristina Fonseca Frischeisen, e o advogado de Gladson, Pedro Ivo Rodrigues Velloso Cordeiro, concordaram. Em seguida, a representante do Ministério Público Federal sustentou que o caso Colorado é um desdobramento direto da investigação que já resultou na condenação do ex-governador na AP 1076.

Direcionamento

Na sustentação oral, a subprocuradora afirmou que as provas reunidas demonstram “um direcionamento planejado” da licitação, associado à ausência de competitividade real entre os consórcios participantes. Segundo ela, mensagens extraídas de celulares apreendidos indicariam que Gladson atuou para favorecer a Colorado na concorrência pública.

Ação inconteste

“O uso do cargo em benefício de familiares fica evidente”, afirmou a procuradora ao citar mensagens recuperadas do celular de Linker Cameli. Segundo o Ministério Público, o então governador teria encaminhado ao primo informações sobre futuras obras e licitações, em um contexto no qual a Colorado “estava sem contratos”.

Influência

A acusação também sustenta que Gladson mantinha controle político sobre o Deracre por meio de aliados próximos nomeados para cargos estratégicos, entre eles Petrônio Aparecido Chaves Antunes e Jander Huber Ferreira Nobre Júnior. Para a Procuradoria, o ex-governador extrapolava as atribuições de chefe do Executivo ao interferir diretamente em pagamentos e decisões administrativas relacionadas às obras públicas.

Corroboração

O Ministério Público também descreveu um suposto esquema de desvio de recursos públicos por meio de sobrepreço na execução da obra da AC-405. A denúncia se baseia em nota técnica da Controladoria-Geral da União que apontou sobrepreço superior a R$ 3,6 milhões e prejuízo estimado em ao menos R$ 1,5 milhão. De acordo com a acusação, os valores inflados teriam sido operacionalizados por meio de cobranças incompatíveis com o porte da obra e posteriormente direcionados ao grupo familiar do ex-governador.

Demonstrativos

Entre os elementos apresentados pela Procuradoria estão transferências financeiras envolvendo empresas ligadas à Colorado e ao grupo empresarial da família Cameli, além de pagamentos relacionados a imóveis atribuídos ao ex-governador em São Paulo. Segundo a acusação, parte dos recursos públicos desviados teria sido usada para quitar despesas particulares.

Contraponto

A defesa de Gladson reagiu em tom duro. Durante quase uma hora de sustentação, o advogado Pedro Ivo Cordeiro afirmou que toda a Operação Ptolomeu estaria “contaminada na origem” por supostas ilegalidades na obtenção de Relatórios de Inteligência Financeira (RIFs) do Coaf. Segundo ele, a investigação teria começado de forma irregular ainda na primeira instância, sem autorização judicial válida contra autoridade com foro privilegiado.

Generalidades

Pedro Ivo também afirmou que a denúncia não descreve qualquer ato concreto praticado diretamente por Gladson Cameli para fraudar a licitação. Segundo ele, a acusação se sustenta apenas em “conjecturas” ligadas ao parentesco entre o governador e os empresários investigados. “O máximo que se apresenta é uma mensagem avisando sobre uma futura licitação”, afirmou o advogado. “Avisar alguém sobre uma concorrência pública não é crime. Isso estimula a competitividade”, aduziu o defensor de Cameli.

Superficialidade

A defesa questionou ainda a ausência de perícia técnica sobre a obra da AC-405 e criticou o uso de relatórios da CGU como principal base da denúncia. Segundo Pedro Ivo, a investigação “recicla indícios” sem apontar ordens diretas, atos administrativos específicos ou interferência comprovada do então governador no processo licitatório.

Rito

Ao final da sessão, a Corte Especial recebeu por unanimidade a denúncia do Inquérito 1674 contra Gladson Cameli, permitindo a abertura de nova ação penal ligada à Operação Ptolomeu. Além disso, os ministros decidiram renovar medidas cautelares impostas aos investigados, mantendo restrições patrimoniais e processuais já determinadas no curso das investigações.

Louvável

O deputado estadual Emerson Jarude (Novo) realiza amanhã, sábado, dia 09, às 13h, no Teatro Universitário da UFAC, um grande aulão do ’Passa Fácil’, projeto gratuito de preparação para a prova da Polícia Civil. Durante o evento, serão sorteadas 180 vagas presenciais para os candidatos inscritos no projeto e que estiverem presentes no local.

Ferramentas

Criado por Jarude, o ‘Passa Fácil’ tem como objetivo ampliar o acesso de jovens e adultos à preparação de qualidade para concursos públicos, especialmente para quem não teria condições de pagar por um curso preparatório. Nesta edição, o projeto disponibiliza 10 mil vagas online, garantindo aos contemplados acessos digital a aulas, conteúdos e materiais de estudo.

Requisitos

Além das vagas online, o projeto também vai oferecer 180 vagas presenciais integralmente gratuitas, que serão sorteadas durante o ‘aulão’ deste sábado. Para participar do sorteio, o candidato precisa estar inscrito no ‘Passa Fácil’ e comparecer ao evento, onde poderá preencher sua ficha e colocar o nome na urna.

Habilitação

A iniciativa conta com a parceria do Insituto de Desenvolvimento e Educação da Amazônia (IEDA) e do CÉOS Concursos, instituição reconhecida na preparação de candidatos para concursos públicos no Acre. A parceria com o diretor Marcos Lima fortalece a estrutura pedagógica do projeto, garantindo professores preparados, material atualizado e uma metodologia voltada para quem busca aprovação. Quem ainda não se inscreveu ainda pode tentar garantir acesso ao Passa Fácil Online. Basta clicar no link divulgado nas redes oficiais e enviar mensagem para a equipe de atendimento

“Toc, toc, toc…”

Ontem, 07, a agenda foi agitada no espectro político nacional. Demorou, mas cedo da manhã a Polícia Federal enfim bateu à porta de Ciro Nogueira, o presidente nacional do PP (Partido Progressista). O senador estava na mira da PF desde o início do escândalo do Master. Numa mensagem célebre, Daniel Vorcaro o descreveu como um dos “grandes amigos de vida”.

Excentricidades

Para o ministro do STF André Mendonça, a relação extrapolava a “mera amizade”. De acordo com as investigações, Ciro recebia mesada de até R$ 500 mil. Além disso, usava o cartão do banqueiro para pagar voos internacionais, hotéis de luxo e restaurantes estrelados.

Ação direta

Ciro deixou rastros da dobradinha. Foi dele a proposta de elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito. Um incentivo e tanto para bancos que fraudam o sistema financeiro com títulos sem lastro.

Apodo

O texto assinado pelo senador já havia sido apelidado de “emenda Master”. Agora, diante das investigações da Polícia Federal, sabe-se que foi redigido por funcionários do banco e depositado num envelope em nome de Ciro. “Saiu exatamente como mandei”, festejou Vorcaro, num dos diálogos captados no seu celular. O colóquio atesta a captura do cargo público para fins particulares.

Fechado em copas

Antes sempre falante, ontem o chefão do PP passou o dia em silêncio depois de ser acordado pela polícia. Seus advogados disseram que ele “repudia qualquer ilação de ilicitude”. Ciro já foi conhecido como o príncipe do baixo clero. Habilidoso, virou presidente de partido e se projetou como um dos maiores articuladores do Centrão. Nos últimos anos, costurou a aliança do grupo com o bolsonarismo. Foi chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro e era cotado como candidato a vice de Flávio. Animado, o senador chegou a definir o arranjo como “chapa dos sonhos”.

Pesadelo

Para a bancada do Master, a operação de ontem pode ter sido o início de um pesadelo. A PF ainda não havia encostado em políticos que alugaram seus mandatos ao trambiqueiro da Faria Lima. A fila é extensa e suprapartidária. Além de congressistas, deve pegar governadores que despejaram dinheiro de aposentados nos fundos de Vorcaro. Pela quantidade de provas citadas por Mendonça, Ciro teve sorte. O senador pode ter perdido algumas horas de sono, mas poderá compensá-las em casa. E sem tornozeleira eletrônica.

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