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Ai que preguiça

Macunaíma significa, em tupi-guarani, o grande mal. É esse o título da principal obra do relicário do modernismo brasileiro, Mário de Andrade. Uma rapsódia sobre a identidade nacional que sublinha o homem brasileiro como o herói sem nenhum caráter. Um inimigo da verdade, o malandro, o esperto, o preguiçoso, o egoísta, o vingativo, o birrento, a mente ardilosa.

Afinal onde alocar as emoções anunciadas com o destino da BBB Karol Conká, os entusiasmos nem sempre sutis com o perfil escatológico do deputado preso Daniel Silveira e o silêncio cúmplice das nossas instituições religiosas diante do descalabro que é a ainda deputada e pastora Flordelis, agora recolhida numa UTI depois de uma overdose de medicamentos, suspeita de mandar matar o marido numa orquestração macabra envolvendo mais de uma dezena de filhos entre adotivos e naturais.

E o que dizer do comportamento escandaloso do ministro da Saúde, o inominável Pazuello, diante de uma pandemia que apavora o País? Como se colocar em face da postura cínica do presidente Bolsonaro ironizando o vírus, as contaminações, as vacinas, a implosão do nosso precário e elitista sistema de saúde? A lista de absurdos adentra os quartéis, as igrejas – todas elas -, o Congresso, a Justiça, os escaninhos do Poder Executivo, as sombras visíveis e invisíveis dessa miserável República.

O que vale dizer que apontar o dedo para o presidente da República, os gatunos do Centrão, ministros incompetentes e ostensivamente desqualificados, juízes, tribunos e militares de um modo geral, pode até animar a nossa contemplação passiva e covarde diante dos descaminhos da Nação, mas não esconde que eles são exatamente nós! Mais do que omissos diante dos desmandos e da desfaçatez que campeia no País, somos, sobretudo, cúmplices!

Não é apenas o povo perdido e desconectado da nossa rala institucionalidade e tênue cidadania que olha e sente o Estado e a gestão pública no Brasil como uma hidra mortífera. Nossa pavorosa degradação encontra acolhida nos endinheirados da hora, em parte significativa das nossas classes médias, no pequeno e no médio produtor rural, nos gestores dos pequenos negócios.

O ódio, a contemplação mórbida e prazerosa com a derrota e a infelicidade do outro, a pulsão hierárquica para o mando e a submissão, o culto sinistro da violência e da morte, o escárnio e desdém com desamparo e a necessidade não são, infelizmente, sentimentos e expectativas isoladas na degradada sociedade brasileira. Esses sentimentos são hoje tão observáveis como os sintomas vertiginosos do convid-19 e suas variantes tenebrosas. “A violência fascina os seres moralmente mais fracos…já o homem livre, criador e sensível modela o belo e exalta o sublime, ao passo que as massas continuam arrastadas por uma dança infernal de imbecilidades e embrutecimento”, nos advertiu um dia Albert Einstein. O que há de belo e eventualmente sublime na República? O Bolsonaro?!

Como e porque chegamos nesse momento tão extravagante é uma pergunta que vem ocupando as poucas mentes inquietas que ainda sobrevivem no País. Dos erros do PT à volúpia do neoliberalismo, tudo cabe nessa matula. “Podemos dizer que é um vírus que foi tomando todos os aspectos da cultura, quase uma estrutura rizomática, que foi se metendo nas formas de vida, no corpo, nas relações sociais, amorosas, de amizade, laborais, foi tomando os governos. Então, foi tomando o coração da subjetividade”, ponderou Jaques Lacan ao sentir os desencontros dos tempos que se anunciavam com o fim da ilusão socialista.

Como diria Macunaíma entre bananeiras: ai que preguiça!


Jorge Henrique Cartaxo, jornalista

Fonte: https://osdivergentes.com.br

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