Senador afirmou que respeitará o resultado das urnas, mas divergências sobre recursos parlamentares e acusações durante a campanha podem dificultar a relação com o novo governo
A eleição de Mailza Assis (PP) para mais um mandato à frente do Governo do Acre abre um novo capítulo na relação política com o senador Alan Rick (Republicanos), adversário derrotado no segundo turno. Embora o parlamentar tenha declarado que respeitaria a decisão dos eleitores, as divergências acumuladas durante a campanha e os atritos anteriores sobre o reconhecimento de emendas parlamentares representam desafios para a convivência entre o Senado e o Executivo estadual.
Antes da confirmação do resultado eleitoral, Alan foi questionado sobre a possibilidade de Mailza vencer a disputa. Na ocasião, afirmou que não teria dificuldades em lidar com a adversária caso ela fosse escolhida pela população.
“Não tem nenhum problema. Se ela for eleita, que seja feita a vontade do povo e de Deus, pra mim não há problema nenhum. A gente sempre respeita o resultado das urnas”, declarou.
A manifestação estabeleceu uma sinalização de respeito institucional, mas não encerra as divergências políticas entre os dois. Com a vitória de Mailza, a relação precisará passar do confronto eleitoral para a interlocução sobre projetos, investimentos e demandas dos municípios acreanos.
Campanha foi marcada por acusações e confrontos pessoais
Durante a disputa pelo governo, Alan Rick questionou publicamente o diploma de Pedagogia apresentado por Mailza. O caso foi levado à Justiça Eleitoral, por meio de uma ação que contestou o documento utilizado pela governadora no registro da candidatura. A defesa de Mailza afirmou que a instituição de ensino confirmou a autenticidade do certificado.
O senador também explorou politicamente o caso envolvendo Melissa Sampaio, ex-mulher de Madson Cameli, marido de Mailza. Madson foi denunciado pelo Ministério Público do Acre por suspeitas de lesão corporal grave e violência psicológica, acusações negadas por sua defesa. O episódio foi utilizado pela campanha de Alan para questionar a postura da governadora em relação à violência contra a mulher.
Do outro lado, a campanha de Mailza resgatou a repercussão de um episódio ocorrido em 2023, quando Alan se envolveu em uma discussão com um funcionário da Latam no Aeroporto de Brasília, após perder um voo para Rio Branco. O agente Francisley Souza apareceu em material eleitoral relatando sua versão do ocorrido e as consequências profissionais que, segundo ele, enfrentou.
Na época, o senador reconheceu publicamente que havia sido grosseiro e pediu desculpas, conforme registros divulgados pela imprensa.
Mailza também levou ao debate acusações relacionadas ao chamado “laranjal do DEM”. A sequência de episódios ampliou o confronto entre os candidatos e deslocou parte da disputa para questões pessoais e controvérsias externas às propostas administrativas.
Emendas parlamentares podem voltar ao centro da disputa
Além dos embates eleitorais, a destinação e a divulgação de emendas parlamentares representam um ponto concreto de tensão. Durante o governo de Gladson Cameli, Alan Rick criticou a falta de reconhecimento público de recursos indicados por seu mandato para obras e investimentos no estado.
O senador reclamava que a comunicação oficial do governo não destacava adequadamente sua participação no financiamento de determinadas iniciativas. Um dos exemplos citados foi o Complexo Viário da Avenida Ceará, em Rio Branco, que recebeu recursos de emenda parlamentar de Alan. O senador não participou da inauguração da obra, em meio às divergências sobre o reconhecimento de sua contribuição.
Com Mailza no comando do Executivo, a questão poderá voltar à pauta. A destinação de recursos dependerá das prioridades estabelecidas pelo mandato do senador, mas a forma como as emendas serão executadas, divulgadas e atribuídas também poderá influenciar a relação entre os dois grupos políticos.
Procurados pelo ContilNet, aliados de Alan informaram que as indicações de emendas destinadas ao governo do Acre ainda não estão sendo planejadas. Segundo eles, a definição dependerá da organização do mandato para o próximo ano, quando deverão ser estabelecidas as prioridades para a aplicação dos recursos.
Relação dependerá de decisões práticas após a eleição
A declaração de Alan Rick de que respeitaria o resultado das urnas oferece um ponto de partida para a convivência institucional com Mailza. No entanto, a manifestação não significa que as divergências acumuladas durante a campanha tenham sido superadas.
A relação entre o senador e o governo estadual deverá ser medida, sobretudo, pelas decisões tomadas nos próximos meses. A articulação por recursos federais, o financiamento de obras e o atendimento às demandas dos municípios exigirão diálogo entre os dois lados.
Mailza terá de conduzir a interlocução com um senador que disputou diretamente o governo contra ela, enquanto Alan precisará definir as prioridades de seu mandato e a estratégia de relacionamento com a nova administração estadual.
O desafio será transformar o respeito declarado ao resultado das urnas em uma relação institucional capaz de produzir resultados para o Acre, mesmo diante das diferenças políticas que marcaram a eleição.


