Rio Branco, AC 9 de janeiro de 2026 23:56
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Ao atacar ditador da Venezuela, Trump pode entrar em atoleiro

Não há dúvidas de que Nicolás Maduro era um líder autoritário e corrupto, cuja violenta repressão provocou o êxodo de cerca de 20% da população venezuelana desde 2014. Porém, ao ordenar o ataque à Venezuela para capturar e sequestrar o ditador e sua esposa, Cilia Flores, o presidente dos EUA, Donald Trump, cometeu um crime de agressão sob o direito internacional — um país não pode atacar outro salvo em legítima defesa contra uma agressão sofrida ou por aprovação do Conselho de Segurança da ONU. Mesmo sob a lei americana, Trump violou a constituição ao não buscar o aval do Congresso para a ação militar — se os EUA ainda fossem um país que levasse isso a sério, a ação poderia suscitar o impeachment do presidente. E em um drástico afastamento de sua bandeira contrária a intervenções no exterior, Trump declarou que os EUA iriam “governar” a Venezuela até uma “transição segura” de poder e que iriam controlar a produção de petróleo do país — arriscando ficar preso em um atoleiro traiçoeiro, assim como o russo Vladimir Putin está há quase quatro anos na Ucrânia.

Embora Maduro tenha sido destituído do poder, ainda é cedo para declarar o fim do regime inaugurado por Hugo Chávez em 1999. Seus aliados chavistas continuam no poder, com a vice-presidente, Delcy Rodríguez, assumindo a presidência — reconhecida pelo governo brasileiro ainda no sábado. Também continuam na cúpula o poderoso ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, e o ministro do Interior, Diosdado Cabello, que comandam a força militar do regime. Esse futuro ainda é uma incógnita. Delcy adotou um tom desafiador no sábado, mas, segundo reportagem do New York Times, altos funcionários do governo Trump têm a expectativa de que ela possa ser uma solução temporária, que protegeria investimentos americanos no setor de energia na Venezuela.

Os venezuelanos na diáspora — mais de 8 milhões — podem ter comemorado a queda de Maduro, mas na capital, Caracas, a primeira reação foi estocar comida e combustível em meio à elevada incerteza. Uma cautela que reflete anos de tentativas fracassadas de transições democráticas e um clima de medo e repressão fomentado sob o governo de Maduro.

Até ontem, ainda não estava claro como Trump pretende “governar” a Venezuela, um país de 30 milhões de habitantes e com vastas reservas de petróleo. Não há um plano concreto de presença de tropas ou administradores americanos na Venezuela. Ao escantear a líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, chamando-a de “boa moça”, mas que não está pronta para assumir o poder, Trump indicou que pretende controlar Delcy e o restante da cúpula chavista em vez de uma mudança completa de regime. Em entrevista ao New York Post, o presidente confirmou essa abordagem ao dizer que tropas americanas na Venezuela não seriam necessárias, desde que Delcy “faça o que queremos”. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, esclareceu ontem que os EUA vão usar o bloqueio ao petróleo venezuelano para forçar as mudanças desejadas no regime chavista.

Anabolizado pelas imagens de grandes explosões e a captura de Maduro sem nenhuma baixa do lado americano — segundo o New York Times, cerca de 80 militares e civis teriam morrido no ataque americano —, Trump sugeriu disposição de ampliar suas aventuras na América Latina. Ele insinuou que o México — que fornece quase todo o fentanil consumido nos EUA — estaria na mira porque os cartéis comandariam o país, e não a presidente esquerdista, Claudia Sheinbaum. Também alertou Gustavo Petro, da Colômbia — maior produtora de coca do mundo —, para “tomar cuidado”.

Mas essa nova missão de Trump de “tornar a Venezuela grande novamente” e de retomar a dominância dos EUA nas Américas pode ser difícil de engolir para parte de sua base de apoiadores. A congressista Marjorie Taylor Greene, ex-aliada de Trump que rompeu com o presidente após acusá-lo de abandonar sua base política, condenou prontamente as ações na Venezuela, dizendo que muitos no movimento Maga (Make America Great Again) votaram em Trump pensando que estavam acabando com o engajamento dos EUA em guerras estrangeiras. Outro deputado republicano declarou que os EUA deveriam “governar” apenas os EUA.

Até agora, o sistema de freios e contrapesos da democracia americana falhou em conter as escancaradas violações de Trump, com uma Suprema Corte lotada de indicados pelo presidente e um Congresso sob controle de um Partido Republicano que poderia se chamar Partido Trump. Assim como no caso das tarifas, é a dura realidade que pode impor alguma restrição ao presidente. A insatisfação dos americanos com a crise no custo de vida fez Trump rever muitos dos aumentos tarifários, incluindo a sobretaxa de 40% às importações de produtos brasileiros. Trump encerrou 2025 com os piores índices de sua Presidência, com 56% de desaprovação, segundo pesquisa Economist/YouGov. Para 51% dos entrevistados a economia está piorando, o que pode custar o controle republicano do Congresso nas eleições de novembro. A pressão política e econômica pode ter levado Trump a buscar sua própria guerra externa para desviar da baixa aprovação interna. Mas as intervenções americanas no Iraque, Afeganistão e Líbia não são um bom presságio para o líder americano.

Editorial do jornal Valor Econômico de 05.01.2026

Fonte: https://valor.globo.com/