Rio Branco, AC 18 de fevereiro de 2026 17:36
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Alfabetização para a contemporaneidade

Por muitos anos, prevaleceu a ideia de que o analfabetismo consistia em não saber soletrar uma palavra. Faz algum tempo, usa-se o conceito de analfabetismo funcional para quem sabe decifrar as letras, mas não compreende um texto mais complexo. A realidade atual revela outro tipo de analfabeto: aquele que sabe ler, inclusive textos, mas não está preparado para entender e participar do mundo contemporâneo. O analfabetismo é uma forma de escravidão, não apenas ao impedir a leitura de um texto, mas também quando dificulta a compreensão e participação profissional, política e cultural no mundo. Além de outros fatores, causa determinante da estagnação e da concentração da renda nacional está no analfabetismo dos conhecimentos necessários para elevar a produtividade e a eficiência de nossa população em todos os setores da economia.

O primeiro analfabetismo a ser superado é o da proficiência escrita e falada da língua nacional. O Brasil não ingressa na contemporaneidade com 10 milhões de adultos sem saber ler nem escrever, incapazes de reconhecer a própria bandeira nacional, e com 50 ou 60 milhões que conseguem ler “Ordem e Progresso”, mas não sabem escrever ou analisar e interpretar corretamente um texto longo, peça literária ou manual de produção ou uso. Ao falar, não dispõe de oratória suficiente para passar uma ideia ou submeter-se a uma entrevista de emprego.

A alfabetização para o mundo contemporâneo deve oferecer a cada brasileiro os fundamentos da matemática, as bases das ciências, além de história, geografia e gosto pelas artes e literatura; oferecer consciência política e compromisso para participar dos destinos da nação. O alfabetizado para a contemporaneidade precisa ter visão do mundo global atual, compreender os desafios do país e do mundo. Perceber os limites do crescimento econômico e que o PIB deixou de ser o único indicador de progresso, pois a riqueza precisa ser sustentável ecologicamente e socialmente justa.

No mundo atual, para o conhecimento ser efetivo, é necessário formar a solidariedade entre os seres humanos e destes com a natureza. Quem não percebe a interdependência entre cada ser humano é um analfabeto social. O analfabetismo do individualismo impede a eficiência da política, barra a sustentabilidade e termina promovendo o suicídio da democracia, da justiça e do equilíbrio ecológico. Uma forma de analfabetismo diante do mundo moderno é não falar e escrever ao menos um idioma estrangeiro. Sem isso, torna-se difícil conhecer, acompanhar e participar do mundo, é praticamente inviável cursar um ensino superior de qualidade.

Outro componente do analfabetismo contemporâneo é a ausência de habilidades técnicas para o exercício de um ofício profissional. Todo jovem deve concluir sua educação de base com uma profissão que lhe assegure emprego e renda, de forma que o ensino superior seja para realizar um desejo vocacional, e não para preencher o vazio deixado por ciclos básicos sem qualidade suficiente. A alfabetização plena para a contemporaneidade requer preparar cada aluno para ser capaz de usar com destreza os modernos equipamentos digitais e a inteligência artificial.

O cidadão alfabetizado para a contemporaneidade não precisa necessariamente ingressar na universidade, mas, se tiver vocação e desejar cursar ensino superior, deve estar preparado para disputar vaga nos cursos mais concorridos, independentemente da renda e do endereço.

A educação de base com qualidade deve oferecer a cada brasileiro o ensinamento que lhe permita integrar-se ao mundo contemporâneo, buscar sua felicidade e contribuir para a construção de um país mais rico economicamente, mais justo e eficiente socialmente. O Brasil quase universalizou a “matrícula” nas primeiras séries do ensino fundamental, mas matrícula não é “frequência”, que não é “assistência”, nem “permanência” até o final do ensino médio, que por sua vez não é “aprendizado”, e este nem sempre alfabetiza plenamente para a contemporaneidade. Esse objetivo requer a implantação de um Sistema Nacional Único Público até o final da educação de base com alta qualidade para todos, independentemente da renda e do endereço.

Cristovam Buarque, ex-governador de BSB e professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)
Fonte: https://www.correiobraziliense.com.br/