Estados Unidos e Irã parecem ter finalmente chegado a um acordo preliminar de cessar-fogo. É uma excelente notícia para o mundo, pois deve atenuar a pressão sobre o preço do petróleo, o que já começou. Faltam, porém, detalhes importantes sobre o que foi acordado. E muita coisa ainda pode dar errado até a próxima sexta-feira, data prevista para assinatura do pacto. Além disso, nada garante que a questão central, o futuro do programa nuclear do Irã, será resolvida nos próximos 60 dias. Ou seja, há o risco de o confronto ser retomado em breve.
O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que o estreito de Ormuz, por onde passam 20% do gás e do petróleo consumido no planeta, será reaberto a partir de sexta-feira, sem cobrança de pedágio. Isso fez a cotação do petróleo tipo Brent cair para cerca de US$ 83 na abertura do pregão eletrônico na Ásia, o menor valor desde o início de março. Mas ainda bem acima dos cerca de US$ 60 do começo do ano.
O acordo parece contemplar as principais demandas de Teerã, como o fim do bloqueio e das sanções americanas à venda de petróleo iraniano, a liberação de US$ 25 bilhões em ativos iranianos congelados, o adiamento da discussão sobre o seu programa nuclear e talvez até a criação de um fundo para reconstruir infraestrutura destruída na guerra.
Ainda assim, o regime iraniano terá de lidar com um país muito danificado e uma economia abalada pelo conflito. A guerra abafou o dissenso interno, mas ele pode ressurgir rapidamente, numa sociedade empobrecida.
Para Trump, o acordo traz benefícios, mas também riscos. A menos de cinco meses das eleições para o Congresso, ele deverá reduzir o preço dos combustíveis nos EUA, o que é importante, especialmente às vésperas da temporada de férias e do início do verão, quando o consumo aumenta. Mas o preço dificilmente voltará logo ao patamar de antes da guerra. E a inflação deverá continuar subindo nos próximos meses, devido ao efeito de repasse de preços ainda em andamento.
O presidente terá também de explicar ao público americano por que quebrou sua promessa de não iniciar novas guerras e gastou centenas de bilhões de dólares (projeção de custo de longo prazo) no ataque ao Irã sem atingir o objetivo inicial, que era acabar com a ameaça do programa nuclear iraniano.
Trump afirmou que retomará os ataques se um acordo nuclear não for negociado em 60 dias. Mas ele já recuou de ameaças e estendeu prazos antes. Isso pode ocorrer novamente, e os americanos talvez não tenham um acordo final até as eleições de novembro. Teerã não dá nenhum sinal de que vai abdicar de seu programa nuclear. Pelo contrário. Na ótica iraniana, ele certamente é mais importante hoje do que antes da guerra.
Já houve expectativas frustradas de acordo antes. E muita coisa pode dar errada até sexta-feira. Há detalhes que ainda precisam ser negociados. E há a questão de Israel e o Líbano.
Tanto o Irã como os EUA confirmaram que o acordo estende o cessar-fogo ao Líbano. Israel, porém, afirmou que não faz parte desse acordo. Ou seja, deixou aberta a porta para continuar atacando o grupo Hezbollah (apoiado pelo Irã) em território libanês. Ontem mesmo houve um ataque a Beirute, o que fez Trump criticar publicamente, em termos duros, o premiê Benjamin Netanyahu.
Israel sai do conflito sem ter atingido o objetivo estratégico de acabar com a ameaça nuclear iraniana. E sem a garantia de que isso ocorrerá nas negociações nos próximos meses. O Irã poderá agora se rearmar e rearmar o Hezbollah. E Netanyahu pode estar se indisposto com um dos poucos aliados que lhe restaram nos EUA. Ele ficará marcado por ter convencido Trump a entrar numa guerra que poderá custar aos republicanos a maioria no Congresso americano nas eleições de novembro. E por insistir na guerra, mesmo quando o presidente americano estava disposto a encerrá-la.
E se não houver acordo definitivo em 60 dias? Teerã parece apostar que Trump, que hesitou em continuar a guerra agora, estará ainda menos disposto a retomar o conflito na reta final da campanha eleitoral americana. E, se os republicanos perderem a maioria no Congresso, Trump terá de pedir autorização aos congressistas para reiniciar a guerra. Há uma chance grande de o regime iraniano conseguir enrolar e protelar essa negociação, o que possivelmente é o seu objetivo desde o início.
Humberto Saccomandi, jornalista
Fonte: https://valor.globo.com/


