Há quem acredite que os grandes acontecimentos do mundo sejam decididos em capitais, palácios ou centros financeiros. É um engano. Às vezes, uma das melhores notícias nasce silenciosamente numa cidade do interior, atravessa rios, vence fronteiras e termina resumida em apenas três letras: CRM.
Foi o que aconteceu com Raline Krisley Figueiredo Eleamen.
Quem a vê hoje, pronta para vestir o jaleco, talvez imagine que a história tenha sido simples. Mas toda conquista tem o estranho hábito de esconder o caminho percorrido. A fotografia da chegada quase nunca revela as pedras da estrada.
Raline nasceu em uma família humilde de Tarauacá, no Acre, terra de onde também vim ao mundo. Como tantas meninas do interior, cresceu ouvindo que certos sonhos pareciam grandes demais para quem morava longe dos grandes centros. Felizmente, os sonhos não costumam consultar mapas antes de escolher onde nascer.
Ela decidiu estudar Medicina no exterior. Era uma escolha corajosa. Distância, saudade, dificuldades financeiras, adaptação, provas, incertezas. Tudo fazia parte da matrícula. Mas há pessoas que transformam obstáculos em rotina e a persistência em método.
Terminada a faculdade, ainda faltava o desafio que separa o diploma estrangeiro do exercício da profissão no Brasil: o Revalida, o Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos expedidos por universidades estrangeiras. Trata-se de uma avaliação rigorosa que verifica se o médico formado fora do país possui os conhecimentos, as habilidades e as competências exigidos para exercer a Medicina no Brasil.
Ela passou.
Depois veio o CRM. Três letras discretas, mas que carregam anos de estudo, renúncias e esperança. Pequenas no tamanho. Gigantes no significado.
Tenho um motivo especial para escrever esta crônica. Raline é filha de uma de minhas sobrinhas. A alegria, portanto, também é de família. Mas seria injusto guardá-la apenas entre parentes. Histórias assim pertencem a todos, porque lembram que o mérito continua existindo e que a educação ainda é capaz de mudar destinos.
O psiquiatra e filósofo austríaco Viktor Emil Frankl , sobrevivente dos campos de concentração nazistas, escreveu que “quem tem um porquê enfrenta quase qualquer como”. A frase parece ter encontrado morada na trajetória de Raline. Seu propósito sempre caminhou alguns passos à frente das dificuldades.
Tarauacá continua onde sempre esteve. Os rios seguem seu curso, as ruas guardam suas histórias e o povo continua simples e acolhedor. Mas a cidade fica um pouco maior cada vez que um de seus filhos ou filhas mostra ao mundo que a geografia pode indicar o lugar de onde se parte, nunca o lugar onde se chega.
A menina que Tarauacá criou agora veste um jaleco branco.
E há notícias que valem mais pelo que simbolizam do que pelo que anunciam. Esta é uma delas. Porque, quando uma menina do interior conquista um jaleco depois de tantos desafios, não nasce apenas uma médica. Renascem também a esperança, o exemplo e a certeza de que o talento não escolhe endereço. Como ensinou Viktor Frankl, a última liberdade do ser humano é escolher a atitude diante das circunstâncias. Raline Krisley Figueiredo Eleamen escolheu perseverar. E a perseverança, quase sempre, encontra o seu destino.
(*) Advogado, jornalista e escritor


