Rio Branco, AC 8 de abril de 2026 17:36
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Direita puxa fila para desgastar Flávio Bolsonaro

Enquanto o governo e o PT catam cavaco quanto ao momento para começar a confrontar Flávio Bolsonaro, partem da direita as maiores dores de cabeça para o projeto de franquia familiar empreendido por Jair Bolsonaro a partir da Papudinha. Pelo menos duas pré-candidaturas questionam a escolha do filho Zero Um para suceder ao pai inelegível: Ronaldo Caiado, que tenta abocanhar votos daqueles que acham Flávio radical demais, e Renan Santos, que ataca o flanco oposto do senador, falando àquela fatia do eleitorado que se identifica com o discurso antissistema.

Até aqui, as pesquisas mostram pouco espaço para o crescimento de nomes que tentam evitar que já se imponha no primeiro turno a polarização estabelecida em 2018 e repetida em 2022, entre lulopetismo e bolsonarismo.

Mas a entrada em cena desses nomes disputando a atenção dos eleitores que rejeitam Lula obriga os filhos de Jair a gastar tempo em debates estridentes via redes sociais e a combater acusações pesadas de corrupção, rachadinha e conluio com escândalos como o do Banco Master — tudo aquilo que a esquerda ameaça fazer, mas ainda não conseguiu entabular na forma de uma estratégia de comunicação minimamente coesa.

Uma das maiores preocupações dos apoiadores de Flávio é estabelecer uma trégua com setores das igrejas evangélicas que também andaram meio atritados com o clã, por discordar da condução do ex-presidente e da escolha do filho como sucessor. Dirigentes do PL se preocupam com a guerra nada velada entre os filhos de Bolsonaro e a ex-primeira-dama Michelle, que tem muito mais ascendência sobre lideranças evangélicas do que os enteados que a desautorizam publicamente a cada oportunidade.

Outro foco de atenção é o agronegócio, setor fundamental para a estruturação dos palanques bolsonaristas no Centro-Oeste e no Sul, principalmente, mas também em estados cruciais, como São Paulo e Minas Gerais. Caso o PSD leve até o fim a disposição de lançar o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, existe a chance de que ele seja visto como opção mais sólida por expoentes importantes desse segmento econômico. Isso poderia abalar a credibilidade do candidato do PL e dividir votos que, até aqui, são creditados a ele nas pesquisas.

Também pesa sobre os ombros de Flávio a atuação do irmão Eduardo, que desertou para os Estados Unidos e, de lá, não consegue passar um dia sem criar confusão. A última quase custou ao pai a prisão domiciliar provisória que obteve pelo agravamento do seu quadro de saúde.

Cobrado pelas trapalhadas que continua a promover, Eduardo já não esconde a amargura pelo fato de, com seus gestos tresloucados, ter deixado a candidatura presidencial escorrer pelos dedos e cair no colo do irmão. Passou a dizer nas redes sociais que, em uma família, sempre existe um que se “sacrifica” pelo todo.

Todas essas arestas e todos os questionamentos, tanto pela direita mais institucional quanto pela extrema direita que tenta mimetizar Javier Milei, só mostram as fragilidades de Flávio, que o PT e a esquerda não parecem saber como confrontar.

O esfacelamento do bolsonarismo em seu estado de origem, o Rio de Janeiro — com denúncias que vão do uso da máquina em campanhas ao envolvimento explícito com o crime organizado, passando por negócios com o Master no Rioprevidência —, passa ao largo dos discursos de Lula e de seus aliados no Congresso.

A entrada na disputa de nomes de direita que precisam primeiro fustigar o filho de Bolsonaro para ter alguma esperança de tirá-lo do segundo turno não deixa de ser um alento para Lula no momento em que ele parece sem repertório, time e tática para sair das cordas onde está desde o início do ano. Só que a terceirização da disputa política tem alcance e prazo limitados.

Vera Magalhães, jornalista
Fonte: https://oglobo.globo.com/