Era 28 de outubro de 1980 quando o general Raffaele Giudice chegou preso ao cárcere de Casale Monferrato. Ex-comandante da Guardia di Finanza, a polícia fazendária italiana, ele era um dos acusados da “rapina do século”, o escândalo de corrupção e fraude petrolífera que, segundo os cálculos do procurador Domenico Labozzetta, movimentara o equivalente a ¤ 1,2 bilhão.
A quantidade de políticos, empresários e a ligação deles com magistrados fizeram com que o jurista Stefano Rodotà escrevesse: “Quando o fenômeno se alarga até envolver os chefes da Finança, de grandes escritórios de advocacia, os serviços secretos, políticos de primeiro plano e seus colaboradores, é indispensável não se deter nas pessoas e olhar, em vez disso, para o sistema que tornou possível seus empreendimentos criminosos.” É a isto que o Brasil está assistindo no escândalo do Banco Master.
Quando um empresa criminosa conta com uma bancada no Congresso que busca mudar leis para anular investigações é porque a ousadia não se detém diante da luz do dia. A reportagem do Estadão que mostrou essa bancada deve servir de guia ao eleitor para punir todo político que teve o nome envolvido nas manobras que buscavam esconder a rapina do século, que ameaça pôr o petrolão no chinelo. Este não é um escândalo de esquerda ou de direita. Ele é de todos, mas, principalmente, da turma que usa a direita e a esquerda como biombo para se apossar de recursos públicos, seja qual for o presidente.
É aqui que renasce a Questão Moral, tão bem definida por Rodotà. E é nesse contexto que o Instituto Ética e Democracia lançou o manifesto Fortalecer o diálogo para aprofundar a democracia. O documento diz o óbvio nessas horas: não pode haver democracia sem boas instituições, cidadãos politicamente educados e diálogo. “A crise da democracia não será superada pela substituição de uma narrativa fechada por outra. Seu enfrentamento necessita de conhecimento qualificado, debates propositivos e uma sociedade civil atuante.” Nossa democracia – diz o documento – está ameaçada por forças autoritárias, pela degradação do debate público e pela substituição da razão por narrativas emocionais. “A política se converteu em espetáculo permanente de antagonismos.”
O acerto de contas com um sistema político que surgiu dos escombros da Lava Jato e se valeu da ascensão das redes sociais para estabelecer seu reino de ostentação, desvios e golpes não deve converter o conflito em ódio e a divergência em desumanização do outro, ainda que, como disse Rodotà, seja preciso não lhe dar trégua nessa luta, caso contrário o País verá “surgir outros dez mil escândalos”. A história lhe deu razão.
Marcelo Godoy, jornalista e escritor
Fonte: https://www.estadao.com.br/