Rio Branco, AC 10 de fevereiro de 2026 19:18
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A intrincada costura de Lula na troca do vice

Com a afirmação de que o vice-presidente Geraldo Alckmin tem um papel a cumprir em São Paulo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tirou do bastidor a especulação sobre a remontagem de sua chapa. Trazer o debate à luz do dia, porém, não é suficiente para desinterditar os dois principais problemas trazidos pela saída do PSB e a entrada daquele que, hoje, é o partido mais provável para substituí-lo, o MDB.

Tirar Alckmin da chapa não é o problema. O nó é fazê-lo disputar o governo de São Paulo. Hoje o maior projeto do PSB é eleger o prefeito do Recife, João Campos, ao governo de Pernambuco. Para isso, o partido quer o apoio lulista e não a neutralidade defendida pela atual governadora, Raquel Lyra (PSD). Em 2010, Lula apoiou tanto o pai de João, Eduardo Campos, que se elegeu, quanto o senador Humberto Costa, que ficou em terceiro lugar, atrás do deputado federal Mendonça Filho (União-PE).

O acordo (quase) de cavalheiros que marcou aquela eleição não se reproduz este ano, visto que a disputa, de tão agressiva, cobrará caro de João e Raquel, duas das mais promissoras lideranças da política nacional. É a réplica do caritó, depósito em que se criam caranguejos. Quando um tenta subir, um outro puxa sua pata.

Com um PSB tão dependente assim de João Campos, fica fácil para Lula impor seu preço. Outra coisa é obrigar Alckmin a disputar em São Paulo. Os ministros têm se queixado a boca pequena de que Lula não tem discutido o cenário eleitoral de cada um. Determina seu rumo e não se fala mais nisso.

O presidente tem falado abertamente que as duas bandas do eleitorado estão consolidadas entre lulismo e bolsonarismo e que o número de votos em disputa capaz de decidir a parada é pequeno. Por isso, e pela necessidade de barrar a maioria pró-impeachment no STF do Senado, precisa que os palanques regionais puxem sua votação e não o inverso.

Que Lula precisa de Alckmin para a missão em São Paulo, é fato. Que o presidente possa determinar o rumo do seu vice da mesma maneira que fez com a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, encaminhada para uma duríssima disputa pelo Senado paranaense, é outra história. No PSB, dá-se por certo que, sem a cadeira de vice, Alckmin volta para Pindamonhangaba.

No governo, reconhece-se que Alckmin não se dispõe a encarar, ante o favoritismo do governador Tarcísio de Freitas, a disputa pelo cargo que já ocupou quatro vezes, mas acalenta-se a esperança de que, no limite, discutiria o Senado, deixando a disputa pelo governo para quem dela não conseguir se livrar, os ministros Fernando Haddad ou Simone Tebet.

Todo esse desgaste se justificaria para colocar, na chapa, um nome do MDB, mais provavelmente o ministro dos Transportes, Renan Calheiros Filho. Sua Pasta divide com a de Portos e Aeroportos a responsabilidade por ter feito esta gestão Lula ter ultrapassado todos os governos das últimas três décadas em número de concessões de infraestrutura.

É um “tarcisismo de resultados” aliado à capacidade mais desenvolta de toda a Esplanada para a disputa política. No mais recente de seus vídeos, Renan Filho cruzou os mil quilômetros que separam o porto de Paranaguá (PR) de Pelotas (RS) inaugurando obras e desafiou o governador de Santa Catarina e candidato à reeleição, Jorginho Mello (PL), se ele seria capaz de mostrar que o governo Jair Bolsonaro fez mais estradas que o de Lula.

Vindo de um dos menores Estados do Brasil, cujo eleitorado é inferior ao da Zona Leste de São Paulo, e de uma região que já é tradicionalmente mais lulista que o resto do país, os atributos de Renan Filho são de outra ordem. A disputa política em que mostra habilidade é esta de tirar a discussão do campo ideológico para cotejar aquilo que, de fato, saiu do papel – e não apenas em obras, vide o fim do cartório de autoescolas na obtenção da CNH.

Seria um nome mais talhado para o que Lula, à luz do dia, chama de “guerra” eleitoral, do que a plácida figura de Geraldo Alckmin. A aposta seria a de que, ultrapassada a ameaça à democracia, teria chegado a hora de a frente ampla ceder a vez ao pragmatismo das realizações.

É uma aposta que comporta seus riscos vez que deve haver uma parcela do eleitorado mais confortável em votar num Lula que, se reeleito, deixará o poder com 85 anos, tendo um vice como Alckmin a avalizar uma chapa com um Calheiros, a despeito das evidências de que o filho usa menos o fígado e mais planilhas que o pai.

Lula não discutiu a troca com Alckmin, mas já pediu para Renan Filho não disputar novamente o governo de Alagoas. O problema vai além. Um vice do MDB teria que passar pela convenção de uma sigla com lideranças como o governador Ibaneis Rocha (DF) ou o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, que nunca pestanejaram no apoio a Bolsonaro contra Lula e trabalhariam ao limite para impedir que o partido endossasse a chapa com o PT.

Não bastasse a ala bolsonarista do MDB, predomina hoje uma visão, transversal no partido, de que Lula 3 se comporta como a ex-presidente Dilma Rousseff, no sentido de que acredita ser capaz de se cercar de um cordão sanitário para não ser tragado por temas como Master e aquinhoados. Na definição de um emedebista que já teve vários assentos na Esplanada nas últimas décadas, Lula, antes de entabular uma conversa com o MDB, tem que estar ciente de que para negociar com um partido que tirou Dilma 2 do poder tem que renunciar a ser Dilma 3.

Maria Cristina Fernandes, jornalista
Fonte: https://valor.globo.com/