A personalidade autoritária é um tema que há muito me interessa como problema de teoria política relacionada com a psiquiatria e a psicanálise. Até hoje, porém, não encontrei sobre o tema um texto que me satisfizesse, que abrisse novas perspectivas sobre a questão.
Confesso que fiquei decepcionado quando li o livro de Theodore Adorno (1950) “Estudos sobre a Personalidade Autoritária”. Esperava uma análise psicológica e político-filosófica e o que encontrei foi antes uma análise político-jurídica sobre o fascismo, dado que se baseou em uma pesquisa na qual Adorno contou com cientistas políticos e juristas americanos da Universidade de Berkeley (Califórnia, EUA).
A personalidade autoritária é uma questão que deveria ser estudada pela psicologia e suas diversas ramificações como a psicanálise e a medicina psiquiátrica. Estou convencido de que ela é um dos impulsos psíquicos mais profundos do ser humano –o impulso para o poder. Todos os homens e mulheres são atraídos pelo poder, pela capacidade de impor sua vontade aos demais.
Max Weber falou da dominação carismática e da racional-legal. Na teoria política, deveríamos falar também do exercício do poder ou dominação democrática e da autoritária, a última derivada da respectiva personalidade. Teríamos, assim, quatro formas de exercício do poder: democrático, baseado no apoio dos cidadãos; carismático, baseado no carisma; racional-legal, baseado na lei; e autoritário, baseado na personalidade autoritária do líder e dos seguidores. Essas quatro formas não são exclusivas, podendo ser combinadas, mas com a predominância de uma delas.
O populismo de extrema direita é a expressão atual da dominação autoritária. Ela pode se basear em eleições, mas a opinião daqueles que são entendidos como povo é secundária. O que vale é o entendimento do líder autoritário e o consenso dos eleitores dotados em diversos graus de personalidade autoritária. Sua expressão limite é o fascismo que existiu na Itália e na Alemanha dos anos 1920 à metade dos anos 1940.
Muitos temem que o populismo de extrema direita atual se transforme em fascismo. Não creio que seja provável que isso aconteça. O quadro histórico-político em que estavam inseridos aqueles dois países é muito diferente do dos países ricos e de renda média de hoje, onde a democracia está consolidada, conforme argumentei em um trabalho de 2011. A democracia tornou-se um regime político que interessa a todas as classes sociais.
Os seres humanos dotados de personalidade autoritária estiveram, durante a segunda metade do século 20, espalhados por toda a sociedade. A partir deste século, porém, dado o fracasso da fase neoliberal do capitalismo em promover a melhoria dos padrões de vida, líderes com personalidade autoritária surgiram e foram, aos poucos, obtendo seguidores. Os quais, por sua vez, ao aumentar em volume, ganharam uma dinâmica que lhes é própria, atraindo pessoas que não tinham necessariamente personalidade autoritária.
A questão, hoje, quando alguns países já se tornaram dominados por líderes e eleitores com personalidade autoritária, é saber até que ponto os direitos humanos e a democracia serão vítimas de violência. E quando começará a reação democrática a isso tudo. No Brasil ela poderá começar agora, quando um político autoritário já se declara vitorioso na eleição presidencial, mas a democracia está longe de estar morta.
A personalidade autoritária caracteriza-se pelo exercício do poder pelo próprio poder, pelo gozo do poder. E não a busca do poder para defender seus interesses econômicos —muito menos para defender o interesse público. É o gozo do poder em todos os níveis da sociedade, como propôs Michel Foucault, e não apenas o poder de Estado. Por isso, a legitimação que cada um dá a si próprio para essa atitude política é superficial. É suficientemente rasa para ser possível esperar que o respectivo regime político não se instaure ou não perdure por muito tempo.
Luiz Carlos Bresser-Pereira. Economista e ex-ministro da Fazenda.
Fonte: https://www.folha.uol.com.br/


