Rio Branco, AC 15 de outubro de 2026 17:57
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Segundo turno é outra eleição?

Nada como um segundo turno para acordar o eleitor anestesiado, acertar o passo do incumbente e enfileirar os apoios negados ao desafiante até que ele se tornasse uma perspectiva real de poder. Lula se conectou com as demandas do eleitor, o PT priorizou as ruas e as redes, enquanto o entorno de Flávio Bolsonaro já começa a distribuir ministérios. Os trabalhadores 7×7 da Faria Lima acompanham tudo com a precisão dos dados disponíveis, mas acordam com palpitação: “e se a euforia foi apenas o sonho de uma noite de outono?”

Mudaram o ritmo e as estratégias; contudo, a campanha pode mudar de direção mais depressa do que o eleitor muda de lado.

No ótimo livro “The Bitter End” (sem tradução para o português), publicado após a derrota de Trump em 2020, os autores Sides, Tausanovitch e Vavreck definiram como calcificação o fenômeno da decisão de voto baseada na ideia de pertencimento a um grupo, seja por identidade, religião ou valores pessoais. Se a polarização afasta os campos políticos, a calcificação dificulta a saída de quem está neles. Com a calcificação das lealdades, o eleitor torna-se menos disposto a mudar de lado, mesmo diante de acontecimentos que deveriam levá-lo a reconsiderar sua escolha. Assim, a persuasão se torna mais difícil. E os pequenos deslocamentos decidem quem governa sem desfazer a divisão que produziu a eleição.

Aqui, saímos calcificados em 2014, 2018 e 2022 e vivemos a mesma divisão em 2026. As denúncias de corrupção atingem um candidato, mas ninguém arreda o pé. No “Instituto Nacional de Dois Pesos e Duas Medidas”, censura vira combate às fake news; depredação provoca indignação ou amnésia, conforme a autoria. As benesses do incumbente chocam quem comemorava quando a caneta estava com seu presidente. Cada lado culpa seu par de ministros do STF e se convence de que, retirados dois ou três, o Brasil será um país sério. Ambos erguem a superioridade moral como um troféu.

No meio, restam os indecisos, os eleitores dos candidatos do segundo pelotão no primeiro turno e os que se abstiveram. O combate segue naquela estreita faixa que temos chamado, no IDEIA, de “eleição dos 3%”. Quem antes preferiu outro candidato precisa escolher entre os finalistas, anular o voto ou ficar em casa. Quem já escolheu precisa voltar à urna e confirmar. Poucos estão dispostos a sair de um campo para abraçar o campo adversário.

Essa rigidez convive com outra característica do momento: sustentar um governo popular tornou-se difícil em muitas democracias. Na última década, os partidos governistas perderam posição na grande maioria dos países ocidentais que realizaram eleições nacionais. O desgaste atravessa ideologias e produz o que chamamos de maldição do incumbente.

Governos não entregam a melhoria de vida no prazo e na escala prometidos. A inflação desacelera, mas os preços não voltam ao patamar anterior. O emprego cresce sem aliviar o orçamento doméstico. O eleitor cobra uma experiência; o governo responde com uma estatística. O incumbente precisa responder: se sabe o que fazer, por que ainda não fez? Merece continuar?

Nesse segundo turno, os estudantes que tomaram as ruas em prol do PT fizeram por Lula o que a campanha não tinha conseguido: rejuvenescer sua imagem. Cercado por uma geração que poderia ser sua neta, voltou a parecer parte de uma expectativa de futuro, em resposta ao cansaço frequentemente relatado nas pesquisas qualitativas. Dessa forma, a campanha encontrou o tom ao combinar energia e guerrilha criativa com a agenda do eleitor. Em “O país dividido”, Jairo Nicolau destaca que, entre os eleitores obrigados a votar, os de 18 a 29 anos são os que menos comparecem às urnas. A mobilização dos fandoms de Beyoncé e Taylor Swift pode, portanto, fazer duas coisas por Lula: revitalizar sua campanha e estimular o comparecimento de quem costuma faltar.

A estratégia também lembra os esforços da campanha de Iván Cepeda na Colômbia no segundo turno, que buscou mobilizar quem não havia votado no primeiro turno, justamente com a mobilização de estudantes, artistas e comunidades de fãs de K-pop, como aqui. O esforço fez 2,4 milhões de pessoas a mais comparecerem no segundo turno e também reduziu a distância dele para De La Espriella no resultado final, mas não o suficiente para virar o resultado. Note-se que, diferentemente do Brasil, na Colômbia não há restrição ao transporte de eleitores, o que faz toda a diferença para incentivar o comparecimento.

Do outro lado, Flávio Bolsonaro, candidato da mudança, passou a exibir a imagem do establishment: eventos controlados, ambientes masculinos e políticos enfileirados em torno de uma vitória que já dão como certa. O presidente busca renovação; o desafiante conta com o apoio de quem já manda. Mesmo na oposição, Flávio Bolsonaro faz a campanha como quem já está no poder. Precisa da “não campanha”: transmitir segurança sem interromper o movimento favorável, beneficiado pelo vento desafiante, diante de um governo que não consegue melhorar sua avaliação, com algumas surpresas à la Pablo Marçal para engajar sua base, como as declarações de ida ou não ida aos debates e das motociatas típicas da era Jair.

A pergunta central na reta final é: o que virá depois? Caso eleito, Flávio Bolsonaro priorizaria o ajuste fiscal, a agenda conservadora, as demandas da família Bolsonaro, o impeachment de ministros do STF, a mão de ferro na segurança pública, o fim da reeleição ou o custo de vida? A maioria que hoje vota contra o PT não define essa ordem e quer encerrar a era Lula por razões distintas. E se Lula vencer, a nova energia e a escuta alcançarão o governo? Ou no dia um começará a disputa pelo seu legado?

O mercado saberá quem venceu em uma noite; conhecerá o governo na primeira decisão que contrariar suas expectativas.

O segundo turno é uma nova eleição na estratégia, na mobilização e no peso de cada voto que falta. As lealdades e os problemas vêm do primeiro. Ganhar de Lula ou de Flávio é uma tarefa. Entregar o governo que eleitores e investidores esperam, a partir de um governo potencialmente impopular – dado que será eleito com metade do país contra -, será outra. E fica um alerta: numa eleição com resultado certamente apertado como será esta, o desfecho será democraticamente aceito pelos derrotados? Esse talvez seja o maior risco para quem investe, dado que 8 de janeiro é um pesadelo recente demais para ser esquecido. Que não se repita.