O primeiro turno das eleições de 2026 passou, mas a eleição ainda não terminou. Haverá segundo turno em 25 de outubro. Enquanto candidatos e equipes se reorganizam, considero necessário fazer uma pergunta que ultrapassa a disputa: como queremos viver no Acre nos próximos quatro anos?
Mais de 125 mil eleitores não compareceram às urnas no primeiro turno, conforme o dado divulgado após a votação. É um contingente expressivo, que merece atenção. Mas seria precipitado dizer que todos se ausentaram por desinteresse ou protesto. Há razões pessoais, dificuldades de deslocamento e outras circunstâncias. A ausência, por si só, não revela a motivação de cada eleitor.
O voto passa, os problemas permanecem
No artigo que escrevi recentemente sobre a compra de votos, questionei a ideia de transformar um direito político em mercadoria. Agora, a reflexão é outra, mas complementar: terminada a campanha, o que acontece com a vida das pessoas?
A mãe que procura atendimento para o filho continua precisando de uma unidade de saúde funcionando. O trabalhador continua fazendo contas para pagar alimentação, energia e transporte. O jovem continua buscando emprego. A eleição é um momento importante da democracia, mas não substitui políticas públicas e acompanhamento permanente.
Saúde, renda e oportunidades
Na saúde, precisamos observar o tempo de espera por consultas, exames e cirurgias, a capacidade das unidades e a situação dos municípios mais distantes. Anúncios de ampliação de serviços devem ser acompanhados de dados sobre atendimento efetivo, pessoal e continuidade.
Na economia, a pergunta é simples: a renda das famílias acompanha suas despesas? O Acre precisa discutir emprego, qualificação, produção local e oportunidades para que seus jovens possam escolher permanecer aqui. Não se trata de negar avanços; trata-se de verificar se eles chegam ao cotidiano da população.
Obras públicas e território
Como geógrafo, vejo uma obra pública além do concreto: estrada é acesso; escola é oportunidade; saneamento é saúde; hospital é proteção à vida. Por isso, o cidadão tem o direito de saber o custo, o prazo, o andamento e a utilidade de cada investimento. Atrasos e paralisações precisam de explicações documentadas, sem que isso signifique presumir irregularidades antes de apuração.
E o desenvolvimento não pode ser analisado apenas a partir de Rio Branco. Os 22 municípios têm distâncias, estruturas e necessidades diferentes. Uma política territorial séria precisa considerar as comunidades rurais, os bairros periféricos, as condições de transporte e o acesso desigual aos serviços.
Uma música que também faz pensar
Lembro da música “Até Quando?”, de Gabriel o Pensador. Sem precisar reproduzir seus versos, a canção nos convida a refletir sobre acomodação, desigualdades e participação social. É uma referência pertinente para este momento: a democracia não se encerra quando as urnas são fechadas. Ela exige informação, fiscalização e acompanhamento das decisões públicas.
E daqui a quatro anos?
Você pretende continuar no Acre? Já pensou em ir embora para buscar outras oportunidades?
O que espera encontrar aqui em 2030?
Não tenho a pretensão de atribuir a uma única gestão problemas que atravessam décadas. Também não acredito que tudo se resolva em quatro anos. Mas considero justo acompanhar indicadores concretos: filas de saúde, empregos, renda, saneamento, obras entregues e acesso a serviços em todos os municípios.
Independentemente do resultado do segundo turno, a população continuará tendo o direito de perguntar, acompanhar e cobrar transparência. O Acre não deve ser apenas o lugar de onde nossos sonhos partem. Precisa ser também um lugar onde eles possam se realizar.
John Fagner — Geógrafo, especialista em Geoprocessamento, Planejamento e Inteligência Territorial


