Rio Branco, AC 6 de outubro de 2026 17:40
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Sob a onda conservadora

Além de surpreendente, pois até a véspera a maioria das pesquisas de intenção de voto não a indicava, a vitória numérica do candidato Flávio Bolsonaro no primeiro turno das eleições presidenciais mostra de modo eloquente a consolidação do prestígio da direita. É preciso observar, porém, que, mesmo expressiva, a vantagem de 2,2 milhões de votos que Bolsonaro obteve sobre seu principal adversário, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não é garantia antecipada de vitória no segundo turno. Em 2022, nas quatro semanas entre o primeiro e o segundo turnos, o pai de Flávio, o hoje preso expresidente Jair Bolsonaro, conseguiu reduzir em 4,1 milhões de votos, de 6,2 milhões para 2,1 milhões, a diferença que o separava do mesmo candidato que o filho enfrenta neste ano. Mas Flávio começa a campanha do segundo turno com vantagem.

Há um fato talvez intrigante no crescimento de sua candidatura. Mesmo acusado, não raro com provas, da prática de atos que caracterizam no mínimo imoralidade no exercício de função pública, Flávio Bolsonaro foi conquistando mais apoio num corpo de eleitores que dizem repudiar corrupção e afirmam, com a convicção dos puros, que jamais votariam em alguém envolvido em casos de manipulação de dinheiro de origem suspeita. Tudo se passou, para essa fatia do eleitorado, como se não tivesse havido um episódio moralmente repugnante de relações entre um banqueiro ambicioso e políticos interessados mais em dinheiro do que em ações públicas que deles se pode esperar.

Flávio é o mais notório homem público (há outros em outra esfera do poder) que se beneficiou, em dinheiro, das ações do hoje ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro. É como se o dinheiro que lhe foi repassado por Vorcaro, do extinto Banco Master, e outros atos moralmente condenáveis nada tivessem a ver com ele. Rachadinhas, pagamento em dinheiro da compra de imóvel avaliado em milhões de reais (prática que evita o registro no sistema bancário do valor de certas transações), homenagens a ex-policiais que se tornaram milicianos (e assassino, pelo menos em um caso) e sua notória incapacidade de propor programas de ação com um mínimo de coerência não têm importância para uma parte muito expressiva do eleitorado.

Foi o que seu desempenho nas urnas mostrou. Mas as urnas mostraram algo mais preocupante: a real possibilidade de uma figura política com esse perfil tornar-se presidente da República por quatro anos a partir do dia 5 de janeiro de 2027. Será preciso muito otimismo para esperar que, se isso ocorrer, teremos um país melhor do que o que temos hoje. Podem ser tempos difíceis para muitos, sobretudo os que mais necessitam de ações do poder público. Do ponto de vista programático, o que o candidato detentor do maior número de votos no domingo tem de mais conhecido é o princípio de que o Estado brasileiro precisa ser reduzido. Como seu pai condenado pela Justiça, Flávio Bolsonaro é adversário de políticas públicas que, mesmo adequadamente inscritas na programação orçamentária do governo federal e de grande impacto na vida de boa parte da população, impliquem gastos que poderiam ser utilizados para ações que não tenham características sociais.

Das urnas de domingo levantou-se uma onda conservadora poucas vezes vista em tempos recentes. O PL que abriga Bolsonaro e os partidos aliados Republicanos e PP elegeram 10 dos 20 governadores definidos no primeiro turno. O PT de Lula elegeu três. Das 54 vagas para o Senado que foram preenchidas, o PL de Bolsonaro conquistou 19. Partidos que fariam parte da base de apoio de um novo governo bolsonarista, como Novo, PP e Republicanos, elegeram mais oito senadores. O

Em alguns Estados, a vitória da direita foi avassaladora. São Paulo talvez seja o melhor exemplo. O governador Tarcísio de Freitas, do Republicanos, foi reeleito em primeiro turno por ampla vantagem de 6 milhões de votos sobre seu oponente, Fernando Haddad, do PT. Dos dois senadores eleitos no Estado, um, Guilherme Derrite, é do PP; o outro, André do Prado, é do PL.

Se eleito, por isso, Flávio Bolsonaro terá a seu favor um Congresso Nacional cujas características políticas predominantes serão muito parecidas com as suas. Isso lhe facilitaria a tarefa de governar. Mas isso será bom ou ruim?

Mudança de governo e, consequentemente, de prioridades e de políticas públicas é parte do jogo democrático. Ações que caracterizavam determinada gestão serão encerradas ou substituídas por outras; novos gastos, com novas finalidades e com novos beneficiários serão introduzidos nos programas orçamentários. Em certos momentos, porém, mudanças desse tipo podem implicar rupturas de consequências não previsíveis. Pode ser que sejam para melhor.

Mas nada está decidido. O segundo turno é uma nova eleição, que está apenas começando. Como surpreendeu no primeiro turno, Flávio Bolsonaro pode ser surpreendido no segundo.