A frase foi escrita por Baruch Espinosa (ou, se você preferir, Benedictus de Spinoza), no livro Ética: “Quem imagina que aquilo a que odeia é destruído, se alegrará”. É a proposição de número 20 da parte terceira desse clássico essencial. Isso mesmo: o ódio alegra os viventes.
Espinosa nasceu no dia 24 de novembro (data boa) de 1632, em Amsterdã, numa família de origem judaico-portuguesa (falava o nosso idioma), e morreu em Haia, aos 44 anos. Esse tempo lhe bastou. Ninguém, como ele, escrutinou as afecções do espírito que nos aprisiona. Ninguém, como ele, ensinou que o ódio é inimigo do pensamento e da felicidade. Ninguém, como ele, foi tão incompreendido.
Na apresentação que fez para a edição de Ética publicada pela Edusp em 2015, Marilena Chaui diz que a obra desse pensador inigualável “faz desabar os pilares que sustentam a superstição religiosa, a tirania política e a servidão ética”. Ela tem razão, mas, na vida cotidiana, os pilares não desabaram. Na campanha eleitoral que aí está, o ódio, o medo, o remorso e o ressentimento falam mais alto. Os pilares da superstição religiosa, da tirania e da servidão continuam firmes, para o gozo das multidões. O ódio presenteia o eleitorado apenas com momentos de alegria, mas com doses viciantes de euforia.
Olhe à sua volta, por um minuto que seja. Muita gente aí do seu lado celebra por antecipação o vislumbre de que “aquilo a que odeia” será destruído. Nessas celebrações, acendemse faíscas opacas em olhos que não veem. É um ódio com tamanha carga, com tanto investimento pulsional, que a gente pode até tocá-lo com os dedos. É um ódio que se avoluma, ganha concretude, ocupa lugar no espaço e pesa feito chumbo. É o ódio dos fanáticos.
Mas em que consiste o objeto desse sentimento atroz? A pergunta incomoda, eu sei, mas, se queremos pensar a respeito, temos de enfrentá-la. Não que alguém aqui seja capaz de desarmar a fúria e o ressentimento. Eu apenas diria que, se soubermos pensar, ao menos um pouco, será possível entender um pouco do que se deu conosco. Vamos lá.
O epicentro do malquerer se materializa na personalidade do atual presidente da República, como todo mundo sabe. Odeia-se Lula. Odeia-se o lulismo. Comecemos, pois, pelo que está à mostra. Os índices de rejeição ao atual chefe do governo aparecem nas pesquisas de todo dia, inamovíveis. Não é preciso muito esforço para ver que eles não se devem a uma escolha eleitoral de momento. Os índices de rejeição não são um dado da conjuntura, mas se vinculam a um asco que remonta a forças imperiosas do passado. Trata-se de uma parede sólida que finca alicerces no nosso marco civilizatório – ou na nossa incivilidade ancestral. Vista por esse ângulo, a hostilidade raivosa contra o presidente mal dissimula seus traços de patriarcalismo, de intolerância à visibilidade pública da pobreza e de preconceito de cor.
Nada de novo sob o sol dos trópicos, infelizmente. Mas, à medida que a análise crítica procura ir além do visível, descortinam-se alguns veios por baixo da cena aparente. Esses veios compõem uma trama de muitos nós que reproduz a influência do presidente em todas as dimensões da vida social. Explicando melhor: a liderança do governante instaurou figuras de menor projeção que o representam (por mimetismo ou por emulação) em planos mais exíguos, que vão se subdividindo nas comunidades, nos ambientes de trabalho, nos locais de diversão, nas igrejas e, por fim, nas esferas mais recônditas da intimidade, seja nos círculos de amizade, seja nos laços familiares.
O lulismo – o pacto do “reformismo fraco”, na definição do cientista político André Singer – soube, assim, ramificar-se em rede até os âmbitos mais ínfimos. Toda gente tem lá um conhecido, uma amiga, um primo ou uma irmã que funcionam como o expoente governista dentro de casa. Por efeito dessa trama que faz do lulismo uma rede coesa, o repúdio incontido contra o chefe de Estado, que está lá longe, ganha tradução num repúdio menos declarado contra personagens que estão mais próximas ou muito próximas.
Assim, aquele sujeito reacionário, pouco versado nas verborragias da política, que perde todas as discussões na mesa de almoço de domingo para o cunhado de esquerda, falante e saidinho, vai votar no candidato da extrema direita antidemocrática só para se vingar. Vai votar bufando. Vai usar a urna para desopilar e, no mesmo ato, vai dar o troco no cunhado a quem dedica uma aversão maldisfarçada, silenciosa e ressentida.
Não há dúvida. Os ódios íntimos, principalmente aqueles mais mesquinhos e desprezíveis (embora atados ao grande ódio que se arrasta, pestilento, desde os tempos da colônia), incidirão sobre o resultado das eleições deste mês de outubro. Isso acontecerá não porque somos um país governado pelo PT, mas porque somos um país governado pelo ódio. Muitos de nós padecemos da “impotência” a que Espinosa deu o nome de “servidão”: a “incapacidade de moderar ou coibir os afetos”. O filósofo ensinou que “o homem submetido aos afetos não é senhor de si”. Esse homem, porém, poderá ser o senhor do destino do Brasil.
Eugênio Bucci, jornalista e professor
Fonte: /www.estadao.com.br


