Rio Branco, AC 29 de setembro de 2026 17:50
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Professor da Ufac é afastado após estudante denunciar suposto assédio sexual no Acre

Servidor ficará afastado por 60 dias, sem prejuízo da remuneração; universidade afirma que denúncia está sendo apurada em processo restrito e sigiloso

O professor de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Acre (Ufac) Eduardo Mitke Brandão Reis foi afastado cautelarmente das funções por 60 dias após uma estudante do curso apresentar denúncia sobre supostas condutas de importunação sexual. A medida foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) na última sexta-feira (25).

A denúncia foi apresentada pela estudante Isabele da Costa Barbosa, de 27 anos, que autorizou a divulgação de sua identidade e imagem. Segundo ela, as supostas investidas começaram em 2023, quando cursava a disciplina de Forragicultura, ministrada pelo professor.

Isabele afirma que a situação se prolongou por anos e passou a interferir em sua vida acadêmica e profissional. Um boletim de ocorrência foi registrado na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) em 29 de maio deste ano.

A reportagem procurou o professor e a defesa dele, mas não recebeu resposta até a última atualização.

Estudante afirma que temia sofrer consequências acadêmicas

Segundo Isabele, o professor teria enviado mensagens pelas redes sociais e feito convites para que ela fosse até a sala dele. Ela afirma que evitava confrontá-lo diretamente por temer possíveis consequências dentro da disciplina.

A estudante relatou ainda ter ouvido de outros alunos relatos semelhantes sobre o comportamento do docente.

“Eu nunca cortava ele de uma vez porque eu ficava com medo dele me marcar na matéria como muitos alunos já relatavam”, afirmou.

Isabele está há quase dez anos no curso de Medicina Veterinária. Ela ingressou na universidade aos 17 anos e afirma ter concluído entre 80% e 90% da graduação. Segundo o relato, a disciplina de Forragicultura é pré-requisito para outras matérias.

A estudante afirma que, mesmo depois de deixar de responder às mensagens, continuou sendo reprovada na disciplina. Em uma das mensagens que atribui ao professor, ele teria escrito: “Poxa, faz dois anos que você não me responde, hein”.

Ela também afirma que deixou o emprego como auxiliar de veterinário e vendeu o carro para conseguir se dedicar aos estudos e tentar concluir a disciplina.

“Eu desisti do meu emprego, de ter uma carreira profissional que eu já tava construindo. Eu desisti de tudo isso pra tentar passar na matéria desse homem”, relatou.

Disputa por turma durante as férias aumentou tensão

Outro episódio citado pela estudante ocorreu durante a oferta de uma turma de Forragicultura no período de férias, por meio da modalidade de Disciplina em Período Letivo Especial (DPLE).

De acordo com documentos obtidos pelo g1, a turma havia sido inicialmente atribuída a outro professor. Eduardo, porém, apresentou um despacho questionando a abertura da disciplina.

No documento, o docente argumentou que a matéria era oferecida regularmente desde 2009, que não haveria falta de vagas nas turmas de 2026 e que o professor inicialmente indicado não teria experiência técnica para ministrá-la.

O professor também solicitou informações sobre os alunos matriculados, incluindo quais eram repetentes e quantas vezes haviam cursado a disciplina.

Para Isabele, a situação representou a perda de uma alternativa para concluir a matéria sem precisar novamente passar pelo professor.

Segundo ela, cerca de 40 estudantes participaram da disciplina durante as férias, mas apenas seis teriam sido aprovados. A estudante afirma que passou a se dedicar exclusivamente à matéria.

“Eu não tinha emprego, eu não tinha nada. Eu só fazia estudar manhã, tarde, noite. Eu só estudava, estudava, estudava, estudava e as minhas notas não saíam de 4 a 5”, contou.

Denúncia chegou à universidade e à polícia

Em meio às dificuldades relatadas, Isabele passou a publicar críticas nas redes sociais sobre a condução da disciplina. Ela afirma que, após uma publicação feita antes de uma prova, o professor cancelou a avaliação e deixou grupos de comunicação relacionados ao curso.

A estudante conta que procurou inicialmente a Deam, mas recebeu orientação para levar o caso à Polícia Federal (PF), por envolver um servidor de uma instituição federal. Posteriormente, contratou um advogado e formalizou a denúncia.

Ela também afirma ter aberto um procedimento administrativo na Ufac e relata que passou meses sem receber informações sobre o andamento do processo.

Segundo Isabele, após a repercussão do caso, o reitor da universidade, Josimar Batista Ferreira, se colocou à disposição para recebê-la. De acordo com o relato da estudante, durante o encontro ele informou que seriam tomadas providências e que um novo procedimento havia sido aberto.

Ufac diz que denúncia é apurada sob sigilo

Em nota, a Ufac informou que tomou conhecimento do caso por meio do canal institucional Fala.BR, através da Ouvidoria. Segundo a universidade, foi instaurado procedimento encaminhado à Comissão de Ética para análise de eventual falta ética e também para avaliar a possibilidade de abertura de sindicância ou processo administrativo disciplinar.

A instituição afirmou que o processo tramita em caráter restrito e sigiloso, em razão da natureza dos fatos e para preservar a identidade da denunciante.

A Ufac informou ainda que todas as condutas atribuídas ao servidor serão apuradas, incluindo as relacionadas à suposta prática de assédio e a possíveis descumprimentos de deveres funcionais.

A universidade ressaltou que serão observados a presunção de inocência, o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa. A instituição também informou ter oferecido atendimento à estudante por meio dos mecanismos de acolhimento disponíveis.

O afastamento cautelar determinado pela Ufac tem duração de 60 dias e não implica perda de remuneração durante o período.

Estudante diz temer retorno do professor

Isabele afirma que decidiu tornar o caso público depois de tentar outros caminhos para buscar ajuda. Ela diz temer que o afastamento termine antes da conclusão das apurações.

A estudante afirma que pretende acompanhar os procedimentos instaurados na universidade e na Polícia Federal.

“Tudo que eu mais queria na minha vida era passar na matéria desse cara pra poder ter minha vida em paz, sossegada. Eu nunca quis estar expondo minha cara, correndo riscos. Eu tive isso como última opção, já como grito final”, afirmou.

Até a última atualização, o professor Eduardo Mitke Brandão Reis e a defesa não haviam se manifestado sobre as acusações.